Ontem, antes de dormir, o André fez a seguinte oração, que me mostrou que ele entendeu bem que só Deus pode nos afastar do perigo e nos segurar pela mão quando atravessamos o "vale da sombra da morte" (Salmo 23):
E que assim seja!
porque todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso...

O Hugo tem sentido uma dor no pescoço há dias. No início, pensou que era apenas um simples torcicolo. Mas a dor não passava... Intrigado, como um bom médico, foi "investigar". Consulta daqui, faz exame dali e a suspeita é uma hérnia de disco.
Quando me sentei na cadeira, na tal "sala de procedimentos", e a auxiliar da médica limpou meu rosto, tive uma espécie de premonição e me imaginei com o rosto em chamas em razão do produto.
“Pode”, respondo sem nem pensar, já me antecipando a qualquer conflito que se seguiria caso a minha resposta fosse negativa. Mas a criança, não satisfeita, me pergunta instantes depois:
“Não, mãe, eu quero ter 10 anos. Eu posso ter 10 anos?"
“Pode também”, respondo com um sorriso.
Dessa vez, foi o irmão mais velho quem se encarregou de explicar que não adianta nada a mamãe deixar que ele tenha 10 anos. Ele não vai ter 10 anos. E outra: quando ele tiver 10 anos, o irmão terá 13, e continuará sendo mais velho.
Frustração geral. Se bem que eu comecei a desconfiar que, no fundo, ele já sabia que eu não tenho o poder de fazê-lo ser mais velho do que ele realmente é... A pergunta era só para ter certeza da nossa impotência.
Mas o fato é que o aniversário de 4 anos é uma idade importante para eles. A impressão que tenho é que, na cabecinha deles, com essa idade, eles finalmente deixam de ser bebês e passam a ser crianças. Não lhes tiro a razão. Acho que até mesmo nós pensamos assim.
Os preparativos para o aniversário começaram bem antes da data. Aliás, antes mesmo que passasse o aniversário do Tomás, que é no começo do mês de agosto.
No dia que fomos fazer compras de supermercado para o aniversário, percebi que o André, ao chegar em casa, começou a fazer toda sorte de má-criação (coisas absurdas do tipo: tentar destruir minha maquiagem e, imediatamente após a bronca por esse fato, começar a despejar o detergente na pia da cozinha). Coisas que ele não costuma fazer, por mais levado que seja. Pensei que só poderia ser ciúmes. Não tinha outra explicação!
Resolvi conversar com ele e explicar que, agora, era o aniversário do irmão, mas que logo, logo seria o dele, e que a mamãe iria fazer uma festa de aniversário muito legal pra ele também. Mudança de comportamento da água para o vinho. Ele realmente estava com ciúmes, coitado, e não sabia como se expressar.
Começamos, então, a planejar e escolher o “tema” do aniversário. Tentei induzir alguns temas diferentes: “Que tal Monstros S/A?” “Não. Eu quero do Pica-pau”. “Ah, não. Do Pica-pau eu me recuso a fazer. Escolhe outro”. “Então, eu quero do Power Rangers”. “Também não. Outro”. “Do Batman!” “Não, filho, a mamãe já fez esse aniversário para o Tomás...”
Muitos temas depois, escolhemos o do Shrek.
O convite foi a primeira providência – uma montagem de uma foto dele ao lado de uma imagem do Shrek e de outras criaturas encantadas do Reino de Tão Tão Distante: a princesa Fiona, o Burro e o Gato de Botas.
E a alegria dele era maior a cada detalhe da festa:
“Vovó, o convite do meu aniversário de 4 anos (era importante repetir a idade) já está pronto! Tem uma foto minha e do Shrek, e da Fiona, e do Burro, e do Gato de Botas. Ficou muito legal, vovó!!!”
O passo seguinte foi comprar alguns itens da decoração: copos, pratinhos e a vela de 4 anos. Quando cheguei em casa e mostrei tudo isso a ele, tive a real dimensão da importância da data. Ao ver a vela, os olhinhos dele brilharam e, após um suspiro, que misturava incredulidade com satisfação, ele exclamou baixinho:
_ 4 anos!!!
Era um sonho que se tornava realidade. Eu me emocionei com a cena. Me emocionei ao pensar em como as coisas são mágicas para uma criança, em como é simples fazê-las felizes.
E, finalmente, chegou o dia tão esperado! A felicidade dele era simplesmente contagiante. E não teve uma pessoa que não chegasse em mim pra comentar.
No dia seguinte, a irmã do Hugo que mora em São Paulo ligou para dar parabéns a ele. Ainda radiante com a nova idade, ele disse, todo importante:
"Tia Liliam, agora eu tenho 4 anos!""Mesmo, André?! Que legal!! E o que você vai fazer agora que tem 4 anos?”, ela provocou.
Sem hesitar, ele respondeu: “Agora que eu tenho 4 anos, tia Liliam, eu vou poder falar com uma criança de 3 e ela vai ter que me obedecer, porque eu sou mais velho!”
Sinceramente, eu não sei o que é mais preocupante: a sede de poder ou a opressão... De qualquer forma, esta aí:

Ontem, o Tomás ficou chateado com alguma coisa e estava no quarto chorando. Quando ouvi o choro baixinho, fui lá ver o que tinha acontecido. Ele estava debaixo das cobertas, tal qual um adolescente. Perguntei:

Como estamos às vésperas do dia das mães, me lembrei dessa história do André, que é simplesmente o máximo.
O tempo que passamos no carro, nas idas e vindas de passeios e escolas, são momentos preciosos. É a hora que os meninos mais falam, contam novidades e - sobretudo - fazem as perguntas mais difíceis de serem respondidas (e olha que a gente nem passa tanto tempo assim no carro aqui em Goiânia...). 


Outra luta: a cadeirinha do carro e o cinto de segurança. O André já consegue colocá-lo sozinho - o que é uma beleza, porque eu não preciso dar a volta no carro e ir colocar o cinto pra ele, e a gente pode sair mais rápido de casa. Mas às vezes o tiro sai pela culatra. Querendo economizar tempo, eu acabo perdendo, porque nem sempre dá certo. Às vezes, o cinto enrola, a criança não consegue resolver o problema e, quando você vê, já está lá na avenida, no meio do maior trânsito e seu filho sem cinto...

Depois do “cadê-la”, tinha tempo que os meninos não inventavam uma nova forma gramatical. Essa agora foi do André, que inventou uma nova conjugação do verbo fazer.
Estávamos em Fortaleza. Tarde de passeio no mercado central, na feirinha da Av. Beira Mar e na sorveteria de 50 sabores. Trânsito na volta para o nosso hotel. Começamos a inventar histórias para distrair os meninos. O que eles iriam fazer mais tarde? Um belo castelo de areia? Como seria? Cada um começou a falar. O André contou uma história comprida, toda enrolada... Só me lembro que terminava assim:
“E aí todo mundo vai dizer: ‘Nossa, que bonito que eles ‘feram’!”
Feram??!? Uma mistura de foram com fizeram? Ah, esses verbos irregulares... já derrubaram, e ainda derrubam, muita gente boa.

Nós prometemos no batizado: orar pelos filhos e com os filhos, ler a Bíblia com eles, ensiná-los a fazer essas coisas sozinhos. Procuramos fazer isso não apenas porque nos comprometemos, mas porque acreditamos nessas verdades. Mas confesso que, muitas vezes, falta um pouco de fé e, no fundo, achamos que essas coisas não terão resultado (talvez porque, de fato, elas não sejam determinantes - é tudo dom gratuito de Deus, e não fruto das nossas obras...).