segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Quem sabe mais? - parte 2

E, na hora do almoço, semanas depois, o Tomás chega à seguinte conclusão:

- Pai, o Davi só fala mentira.
- Por quê, filho?
- Ele fala que ele sabe de tudo. Mentira. Ele não sabe de nada.
Ele fala que o Gustavo é o melhor amigo dele. Mentira. EU sou o melhor amigo dele.

Quem sabe mais?

Diálogo entre Tomás e Davi, no banco de trás do meu carro, num domingo pela manhã, voltando da igreja.

- Tomás, eu sei de tudo.
- Não sabe nada. Você acha que sabe de tudo, mas você não sabe de nada.
- Sei sim. Eu sei de quase tudo.
- Você sabe de quase tudo, mas você não sabe do resto.
- Que resto? É você que não sabe nada.
- Eu sei de tudo, mas eu não sei de quase nada.

Alguém sabe do que eles estavam falando?

sábado, 25 de agosto de 2007

Vovô Edésio


O André é a-pai-xo-na-do pelo vovô Edésio. A vovó Delza não admite, mas, lá no fundo, morde-se de ciúmes... Mas ele também gosta muito da vovó Delza. Só que, quando o vovô Edésio aparece, não tem pra ninguém, nem mesmo pra mamãe aqui. E é um tal de balançar a cabeça com tanta veemência pra quem tenta tirá-lo do colo do vovô... O vovô, por sua vez, fica parecendo que vai subir pelos ares de tanta felicidade.

E o que mais intriga a vovó Delza é que, pra ela, o vovô Edésio não faz muita coisa para conquistar tanta paixão. Mas será que é mesmo preciso razão pra se gostar de alguém?

O nosso poeta Carlos Drummond de Andrade acreditava que não. Em seu poema, "As sem-razões do amor", ele afirma, na primeira estrofe: "Eu te amo porque te amo". Simples assim. Sem qualquer razão ou motivo. Mais pra frente, ele ainda diz que "o amor é dado de graça" e "foge a dicionários e a regulamentos vários".

Eu também acho que não é preciso razão. Não dá pra explicar por que uma criança com menos de 1 ano já se identifica tanto com uma pessoa que ela nem vê todo dia. Deve haver mesmo uma identidade de almas...

O fato é que o vovô Edésio está sempre lá, disponível e disposto, seja para o colinho durante o desenho animado, seja para acompanhar subidas e descidas intermináveis da escada, ensinando os pequenos a descer "de fasto", como ele mesmo diz. (Eu não achei o significado dessa expressão no dicionário, mas quer dizer "de ré").

Acho que é essa disponibilidade e disposição que o fazem tão querido; ele simplesmente está lá para o que der e vier. E os netos têm esse poder de tornar os avós assim.

Um dia, acompanhei intrigada meu pai descer as escadas rumo à piscina, com uma toalha no ombro. O que o senhor vai fazer?, perguntei. E ele respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo: "Vou nadar com os meninos". Detalhe importante: durante toda a minha vida, vi meu pai entrar nessa piscina apenas e tão somente por duas únicas vezes.

Justiça seja feita: meu pai sempre esteve disponível também para nós, filhos. Sempre pronto para ouvir a nossa argumentação, na vã tentativa de escaparmos do castigo. Podia não dar certo (e acho mesmo que nem sempre dava), mas ele sempre ouvia com atenção. Ele entrou poucas vezes na piscina, é verdade, mas lembro-me bem dele levando eu e o Aurélio ao parque de diversões e ficando por horas na fila da montanha russa, guardando o nosso lugar debaixo do sol.

Mas eu acho que com neto é diferente e deve ser muito melhor. Você pode simplesmente estar junto, mas sem se preocupar com outras coisas que não seja curtir aquele momento. Acho que ser avô é isso, é ter a exata percepção da fragilidade e da fugacidade da vida e saber aproveitar momentos assim.

E o neto, sortudo, sem saber de nada disso, só aproveita o colinho...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O cargo de primeiro ajudante

Dá gosto ver como as crianças, em geral, são dispostas a ajudar, especialmente as pequenas. Estão sempre querendo participar de todas as atividades da casa, como lavar louças e até cozinhar. Quase sempre, acabam atrapalhando, principalmente quando estamos apressados ou cheios de coisas para fazer. Mas deveríamos ser mais pacientes e até mesmo incentivar as ajudas, pois elas podem ser uma verdadeira "mão na roda", além de fortalecer a idéia de grupo, de família mesmo, onde cada um tem a sua responsabilidade. Como dizem, "serviço de criança é pouco, mas quem dispensa é louco".

Quando o André nasceu, o Tomás queria ajudar em tudo, do banho às trocas de fralda. Então, como uma forma de integrá-lo mais à novidade de ter um irmãozinho, institui o cargo de "primeiro ajudante da mamãe". E ai de quem quisesse fazer alguma coisa que eu tivesse, antes, pedido a ele.

Um dia, ajudando o Hugo a trocar uma fralda do André, foi surpreendido com um "pum", digamos..., mais violento, que respingou longe, indo atingir sua camiseta. Ele quase renunciou ao cargo... mas acabou achando graça depois que disparamos a rir.

Lembro-me também de uma outra vez em que pedi a ele que buscasse uma meia branca para o André. Ele foi, todo prestativo. Mas não voltou. Depois de um tempão, veio com uma meia cheia de desenhos de carrinho, falando: "Mãe, olha, tem um branco aqui". Considerei todo o trabalho que ele teve pra conciliar o gosto dele com o meu pedido e apenas o agradeci muito por ser meu ajudante.

Mas, por mais que incentivemos, a verdade é que o gosto por ajudar vai diminuindo com a idade. E, depois, a ajuda só vem mesmo por obrigação.

O meu pequeno ajudante de 4 anos já não gosta tanto assim de ajudar. Já recusa-se a atender os meus pedidos e, ultimamente, só tem se interessado em ajudar quando vou fazer um bolo, pra poder lamber a colher. Mas ainda bem que outros vão aparecendo pelo caminho.

Ontem, vi surgir um novo candidato ao cargo de primeiro ajudante.

Estavam todos os netos na casa da minha mãe. Quatro. Todos homens. A farra é garantida quando todos se reúnem lá (e a confusão também). O André e o Lucas, com apenas 6 meses de diferença, já começam a se desentender e, ontem, disputavam a posse do "crocs" do Lucas, um sapatinho fofo, com carinhas de personagens da Disney pregadas no peito do pé e que tem esse nome porque tem um formato parecendo um crocodilo.

No meio de tudo isso, sinto um cheirinho característico... Detectada a origem, lá vou eu trocar a fralda do André. E o Lucas veio logo atrás.

Pra variar, o André não queria ficar quieto. Então, pedi ao Lucas que pegasse algum brinquedo para o André enquanto eu trocava a fralda, mas sem esperança de que ele atendesse ou mesmo entendesse o meu pedido, até mesmo porque não me lembrava de ter visto qualquer brinquedo espalhado pela sala.

Mas ele saiu correndo do quarto e qual não foi minha surpresa ao vê-lo voltar logo em seguida, oferecendo, para distrair o André, o antes disputado par de "crocs".

Lucas, você foi aprovado na seleção. Aceita ser nomeado para o cargo de primeiro ajudante da tia Lê?

sábado, 18 de agosto de 2007

Criança dá trabalho

Criança dá trabalho. Ponto. Simples assim. Verdadeiro assim. Acredito que, nesse aspecto, ninguém nunca tentou nos enganar. Prova disso são os inúmeros ditos populares que existem por aí sobre as agruras de pais e filhos. Exemplos batidos como: "ser mãe é padecer no paraíso" e até poemas, como o do nosso poetinha Vinicius de Morais, já quase incorporado aos ditos populares: "Filhos? Melhor não tê-los!"...

"Mas se não os temos como sabê-lo?", completa a estrofe.

Acho que talvez seria mesmo melhor não tê-los. Ao menos para as pessoas que querem se iludir achando que é possível ter criança e não ter trabalho.

Hellooooo, criança dá trabalho. E os pais precisam assumir o trabalho que uma criança dá. Não dá pra tirar a parte chata do negócio, passar a trabalheira adiante. Simplesmente porque é difícil distinguir o que é chato e o que não é. E, dependendo do ponto de vista, TUDO pode ser chato, TUDO pode ser difícil.

E se você for passar a parte chata para uma outra pessoa fazer, certamente estará perdendo muita coisa do seu filho, como os gritinhos de felicidade no banho, vê-lo segurando a colher ou a mamadeira sozinho pela primeira vez, descobrir dentinhos apontando, as gargalhadas dele quando você, para fazê-lo ficar quieto na hora de trocar a fralda, brinca de cheirar o chulé. E, quando ele está um pouco maior, ver que ele já sabe a história favorita de cor e rebolar pra tentar responder os tantos "por quês" da vida. Isso sem falar nos olhos sorrindo ao encontrarem os seus, as mãozinhas acariciando o seu cabelo na hora do sono e o abraço apertado que só você recebe.

Quando meu primeiro filho nasceu, lembro-me bem da primeira consulta ao pediatra, aos 10 dias de vida. A médica ficou intrigada quando eu garanti que estava tudo bem, que eu não estava tendo nenhum problema. "Como assim, tudo bem? Toda mãe chega aqui quase enlouquecendo...". Eu apenas disse: "Bom, não estou tendo MAIS trabalho do que eu já esperava ter. Então, pra mim, 'tá tudo bem".

E é verdade. Quem, em sã consciência, espera ter um filho e não ter trabalho? Impossível. Amamentar de 3 em 3 horas, colocar pra arrotar, trocar a fralda a cada mamada (na maioria das vezes, trocar também a roupa inteira), dar banho, colocar pra dormir, acalmar as crises de cólica... Tudo isso dá um trabalho...

Mas, como qualquer trabalho, pode se tornar um suplício, como também pode ser extremamente gratificante. Só depende de como você o encara.

Eu escolhi o caminho mais fácil; o que encararia a tarefa com prazer, e não como obrigação ou necessidade. Eu escolhi ser mãe. E adoro cuidar dos meus filhos. Adoro dar banho, adoro dar comida, adoro sentar no chão e brincar, adoro ler histórias para fazê-los dormir (às vezes, também tento cantar, mas a ausência de talento e o senso crítico me fazem ter dó dos ouvidinhos alheios). E os meus filhos retribuem essa minha escolha sendo excelentes filhos. Eles me surpreendem a cada dia. Não é corujice não. Eles são ótimos de verdade. Dormem a noite toda, alimentam-se bem e são saudáveis e alegres. O que mais uma mãe poderia querer?

Mas você deve estar se perguntando: "em qual galáxia fica o mundo cor-de-rosa dessa mulher?"

Calma. Eu já disse: criança dá trabalho. E trabalho, por mais que você goste dele, também nos deixa cansados, estressados, desanimados, nervosos, irritados... mas nem por isso você pede demissão e entrega pra outra pessoa fazer. Quer dizer, você pode até pedir demissão agora, mas depois vai ter que enfrentar mais trabalho ainda com um adolescente. E a tão esperada aposentadoria pode nunca chegar.

O que eu estou querendo dizer com tudo isso é que me espanta ver cada dia mais pais abdicando do direito de serem pais e entregando-o, de mãos beijadas (e aliviadas), para babás, sob o simples argumento de que criança dá trabalho demais.

E quem foi que disse que não dava?!??

Por favor, não me entendam errado. Não estou falando mal das babás, não estou falando mal de quem deixa o filho sob os cuidados de uma babá. Estou me referindo apenas àqueles que ENTREGAM os filhos para as babás, que sequer conseguem ficar sozinhos com eles, pois não conhecem seus gostos, seus hábitos, as brincadeiras preferidas.

Por isso, a babá está sempre presente: nos passeios no shopping, nas férias da família, nas festas de aniversário e até na visita aos avós. Elas ficam lá, de prontidão, com o uniforme branco, rápidas para atenderem o menor desejo de seus 'patrõezinhos', enquanto os 'patrõezões' compram sossegados, mastigam 30 vezes a mesma garfada, dormem até tarde, bebem uma cervejinha e conversam animadamente com os amigos.

Os filhos? Onde eles estão mesmo? Ah, estão ali, em algum canto, com as babás (quando não ficaram em casa dormindo ou assistindo a TV...)

Sério. Isso não combina comigo. Quero ter trabalho com meus filhos. Quero ficar cansada, com olheira, mas quero que seja EU a brincar com eles, EU a ensinar a falar certo (e não errado), EU a niná-los para dormir, EU a educá-los. Que a babá venha apenas quando eu precisar me ausentar, para os momentos de absoluta necessidade (e só!).

Mas o egoísmo que impera na nossa geração dita o contrário. Entregar os filhos para a babá para que, assim, os pais possam viver a vida deles sossegados, sem menino atrapalhando, tem sido culturalmente aceito e incentivado e, mais do que isso, exigido. Isso mesmo. Exigido. NINGUÉM tem uma vida de felicidade e sucesso se no pacote não estiver incluso uma babá para os filhos. O casamento exitoso precisa ter banheiros separados. O casamento com filhos exitoso precisa de uma boa babá pra toda hora.

E os que insistem em agir diferente - os ETÊS insanos e irresponsáveis do mundo cor-de-rosa, que cuidam sozinhos dos filhos e que vão ao parque e a festas de aniversário sem alguém para 'ajudar' - merecem tão somente a compaixão dos habitantes do mundo das babás. A mais consternada e intensa compaixão, quase como se estivessem diante de alguém que não tem o que comer.

É.. realmente, acho que sou uma louca moradora do mundo vizinho. Mas espero apenas que, no futuro, meus filhos também tenham tanto prazer com a minha companhia.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Enfim, 4 anos

"Mãe, por favor, você deixa eu ter 4 anos? Hein? Eu posso ter quatro anos? Você deixa? Por favor, vai..."

Esses insistentes pedidos preencheram a manhã inteira. Por onde eu ia, aquele pequeno ser de apenas 3 anos me seguia, pedindo insistentemente para que eu o deixasse completar 4 anos.

Num primeiro momento, ainda tentei argumentar, dizer que eu não tinha poder para tanto, que só Deus poderia fazer o tempo passar mais depressa e, enfim, chegar o tão esperado dia do aniversário. Mas o desejo dele não era propriamente pelo aniversário, pela festa, pelos doces e bolo, pelos presentes, brinquedos. O desejo maior era ter 4 anos. Era ser grande!

Mas ele não podia simplesmente decretar seus 4 anos, precisava de uma autorização. E eu deveria dá-la. Eu...

No fim da manhã, já cansada de tentar apresentar argumentos, falei um "tudo bem, você pode ter 4 anos. Aliás, você pode ter a idade que quiser". Ele: "Mesmo? Então, eu quero ter 5 anos".

Desisti. Por que toda criança quer crescer logo? Por que todas querem ser GRANDES? Tudo isso pra, depois, quando enfim se tornarem grandes, terem saudades do tempo em que eram crianças. Vá entender...

O grande dia seria 7 de agosto de 2007, uma terça-feira. Resolvemos antecipar a festa para a sexta-feira, dia 3, porque o Hugo estaria viajando na data certa. Não gosto muito de fazer isso. Gosto de comemorar o aniversário no dia do aniversário, ainda que o dia mesmo seja uma segunda ou terça-feira. Acho que só assim a festa é completa. Mas festa sem todos da família também não dá, ainda mais sem o pai.

Ele ficou radiante com o tal aniversário de, finalmente, 4 anos. Era quase um adulto. A vela em cima do bolo era a parte mais importante, comprovava para todos a nova idade.

Passada a festa, sobras mil, docinhos e salgados entupindo o congelador e engordando a gente, chegou o dia do aniversário mesmo, 7 de agosto. E não deu certo a viagem do Hugo... Resolvemos, então, chamar os avós, tios e primos para uma nova festa.

E lá vou eu contar a novidade...

O que era pra ter sido motivo de alegria (pensei que ele ficaria feliz por ter mais uma festa de aniversário), foi na verdade uma grande frustração.

Quando eu expliquei que aquele dia era o dia do aniversário mesmo e que no outro dia tinha sido só a festa, ele me perguntou, num tom de tristeza e decepção que eu nunca tinha visto: "Então, quer dizer que só hoje eu tenho 4 anos de verdade?"

É, filho, enfim, 4 anos. Desculpe por a mamãe ter te enganado. Nunca mais vou comemorar aniversário fora do dia.