Criança dá trabalho. Ponto. Simples assim. Verdadeiro assim. Acredito que, nesse aspecto, ninguém nunca tentou nos enganar. Prova disso são os inúmeros ditos populares que existem por aí sobre as agruras de pais e filhos. Exemplos batidos como: "ser mãe é padecer no paraíso" e até poemas, como o do nosso poetinha Vinicius de Morais, já quase incorporado aos ditos populares: "Filhos? Melhor não tê-los!"...
"Mas se não os temos como sabê-lo?", completa a estrofe.
Acho que talvez seria mesmo melhor não tê-los. Ao menos para as pessoas que querem se iludir achando que é possível ter criança e não ter trabalho.
Hellooooo, criança dá trabalho. E os pais precisam assumir o trabalho que uma criança dá. Não dá pra tirar a parte chata do negócio, passar a trabalheira adiante. Simplesmente porque é difícil distinguir o que é chato e o que não é. E, dependendo do ponto de vista, TUDO pode ser chato, TUDO pode ser difícil.
E se você for passar a parte chata para uma outra pessoa fazer, certamente estará perdendo muita coisa do seu filho, como os gritinhos de felicidade no banho, vê-lo segurando a colher ou a mamadeira sozinho pela primeira vez, descobrir dentinhos apontando, as gargalhadas dele quando você, para fazê-lo ficar quieto na hora de trocar a fralda, brinca de cheirar o chulé. E, quando ele está um pouco maior, ver que ele já sabe a história favorita de cor e rebolar pra tentar responder os tantos "por quês" da vida. Isso sem falar nos olhos sorrindo ao encontrarem os seus, as mãozinhas acariciando o seu cabelo na hora do sono e o abraço apertado que só você recebe.
Quando meu primeiro filho nasceu, lembro-me bem da primeira consulta ao pediatra, aos 10 dias de vida. A médica ficou intrigada quando eu garanti que estava tudo bem, que eu não estava tendo nenhum problema. "Como assim, tudo bem? Toda mãe chega aqui quase enlouquecendo...". Eu apenas disse: "Bom, não estou tendo MAIS trabalho do que eu já esperava ter. Então, pra mim, 'tá tudo bem".
E é verdade. Quem, em sã consciência, espera ter um filho e não ter trabalho? Impossível. Amamentar de 3 em 3 horas, colocar pra arrotar, trocar a fralda a cada mamada (na maioria das vezes, trocar também a roupa inteira), dar banho, colocar pra dormir, acalmar as crises de cólica... Tudo isso dá um trabalho...
Mas, como qualquer trabalho, pode se tornar um suplício, como também pode ser extremamente gratificante. Só depende de como você o encara.
Eu escolhi o caminho mais fácil; o que encararia a tarefa com prazer, e não como obrigação ou necessidade. Eu escolhi ser mãe. E adoro cuidar dos meus filhos. Adoro dar banho, adoro dar comida, adoro sentar no chão e brincar, adoro ler histórias para fazê-los dormir (às vezes, também tento cantar, mas a ausência de talento e o senso crítico me fazem ter dó dos ouvidinhos alheios). E os meus filhos retribuem essa minha escolha sendo excelentes filhos. Eles me surpreendem a cada dia. Não é corujice não. Eles são ótimos de verdade. Dormem a noite toda, alimentam-se bem e são saudáveis e alegres. O que mais uma mãe poderia querer?
Mas você deve estar se perguntando: "em qual galáxia fica o mundo cor-de-rosa dessa mulher?"
Calma. Eu já disse: criança dá trabalho. E trabalho, por mais que você goste dele, também nos deixa cansados, estressados, desanimados, nervosos, irritados... mas nem por isso você pede demissão e entrega pra outra pessoa fazer. Quer dizer, você pode até pedir demissão agora, mas depois vai ter que enfrentar mais trabalho ainda com um adolescente. E a tão esperada aposentadoria pode nunca chegar.
O que eu estou querendo dizer com tudo isso é que me espanta ver cada dia mais pais abdicando do direito de serem pais e entregando-o, de mãos beijadas (e aliviadas), para babás, sob o simples argumento de que criança dá trabalho demais.
E quem foi que disse que não dava?!??
Por favor, não me entendam errado. Não estou falando mal das babás, não estou falando mal de quem deixa o filho sob os cuidados de uma babá. Estou me referindo apenas àqueles que ENTREGAM os filhos para as babás, que sequer conseguem ficar sozinhos com eles, pois não conhecem seus gostos, seus hábitos, as brincadeiras preferidas.
Por isso, a babá está sempre presente: nos passeios no shopping, nas férias da família, nas festas de aniversário e até na visita aos avós. Elas ficam lá, de prontidão, com o uniforme branco, rápidas para atenderem o menor desejo de seus 'patrõezinhos', enquanto os 'patrõezões' compram sossegados, mastigam 30 vezes a mesma garfada, dormem até tarde, bebem uma cervejinha e conversam animadamente com os amigos.
Os filhos? Onde eles estão mesmo? Ah, estão ali, em algum canto, com as babás (quando não ficaram em casa dormindo ou assistindo a TV...)
Sério. Isso não combina comigo. Quero ter trabalho com meus filhos. Quero ficar cansada, com olheira, mas quero que seja EU a brincar com eles, EU a ensinar a falar certo (e não errado), EU a niná-los para dormir, EU a educá-los. Que a babá venha apenas quando eu precisar me ausentar, para os momentos de absoluta necessidade (e só!).
Mas o egoísmo que impera na nossa geração dita o contrário. Entregar os filhos para a babá para que, assim, os pais possam viver a vida deles sossegados, sem menino atrapalhando, tem sido culturalmente aceito e incentivado e, mais do que isso, exigido. Isso mesmo. Exigido. NINGUÉM tem uma vida de felicidade e sucesso se no pacote não estiver incluso uma babá para os filhos. O casamento exitoso precisa ter banheiros separados. O casamento com filhos exitoso precisa de uma boa babá pra toda hora.
E os que insistem em agir diferente - os ETÊS insanos e irresponsáveis do mundo cor-de-rosa, que cuidam sozinhos dos filhos e que vão ao parque e a festas de aniversário sem alguém para 'ajudar' - merecem tão somente a compaixão dos habitantes do mundo das babás. A mais consternada e intensa compaixão, quase como se estivessem diante de alguém que não tem o que comer.
É.. realmente, acho que sou uma louca moradora do mundo vizinho. Mas espero apenas que, no futuro, meus filhos também tenham tanto prazer com a minha companhia.