segunda-feira, 27 de maio de 2019

A vida é sempre fatal

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A gente conhece de cor e salteado aquele velho ditado "Para morrer, basta estar vivo!", mas nunca dá importância pra ele. Só nos lembramos dessa verdade quando acontece uma morte inesperada, de alguém que não estava doente, de alguém relativamente novo (pelo menos para os nossos conceitos) e com muita vida pela frente.


Sábado, dia 25/05/2019, faleceu um amigo nosso e pastor muito querido: Gil Donizette. 55 anos. Casado. Dois filhos: Davi, 10 anos, e Benjamim, 6 anos. Teve um infarto fulminante enquanto jogava futebol.

Lembrei de várias mortes do mesmo jeito: da Dona Darcy, que faleceu atropelada; da Luciele, 40 anos, que teve uma tromboembolia logo após chegar da viagem dos sonhos a Paris... Vou citar só essas duas, mas a lista poderia ser interminável. De amigos próximos a conhecidos, de ouvir falar ou de ver nas páginas dos jornais. Todos os dias somos impactados com essas notícias. Saiu pra comprar pão e foi assaltado no caminho. Pisou em falso, caiu e bateu a cabeça. Um aneurisma rompeu enquanto tomava banho. Comeu camarão e teve um choque anafilático na festa. Um acidente de carro. Uma picada de abelha. Tantas possibilidades para se morrer de repente quanto para se estar vivo.

E quando não se morre?
E quando fica aleijado? Paralítico? Em estado vegetativo?
E quando a notícia é de uma doença grave?

A vida é sempre fatal, mas a gente vive como se não fosse. A gente vive desprezando nossa finitude e se apegando às pequenas dificuldades do dia a dia. Implica que o marido colocou o papel higiênico virado pra cima, e não para baixo como você gosta. Reclama que o sol está quente na hora que vai atravessar a rua para ir ao restaurante. Briga porque o colega pegou sua caneta e não devolveu para o lugar certo. Murmura porque o professor estendeu a aula por 10 minutos. Xinga porque o carro da frente virou sem dar seta. Fica triste porque não tem roupa nova para ir àquela festa.

Vivemos nessa mesquinhez de sentimentos sem nos dar conta de quão breve é nossa vida. E que poderíamos ter atitudes mais leves ao longo dela. Agradecer que o marido trocou o papel higiênico; que tem alguém pra trocar o papel higiênico. Ver a beleza de um dia claro de verão. Reconhecer a bênção de ter comida no prato, de ter companhia e com quem dividir o trabalho. Aproveitar o conhecimento extra. Compadecer-se do outro que não sabe usar a seta e ser grato por estar no conforto de um carro. Enxergar o armário lotado de roupas e ver que tem mais sapatos que a centopeia. É o tal do "aprender a ser contente em toda e qualquer situação" que o Apóstolo Paulo fala em Filipenses 4.

A gente pode morrer hoje à tarde ou amanhã cedo ou daqui 15 anos. Ou isso pode acontecer com alguém que amamos. Mas, em vez de vivermos nessa perspectiva, interpretamos o "pode" como se isso nunca fosse ocorrer e seguimos com nossa vidinha egoísta, reclamona e ingrata, correndo atrás do vento.

A vida é sempre fatal e é um erro nosso não pensar em suas fatalidades. Estamos preparados para elas? Seja morte, angústia, fome, nudez, perigo, espada, frio, tribulações, doenças? Vivemos sob qual perspectiva? Pensamos nas coisas do alto ou nos circunscrevemos à terra? Ansiamos o céu ou basta isso aqui?

Se verdadeiramente ansiamos o céu, devemos pedir a Deus que nos ajude a mudar de atitude, reconhecendo que Ele é soberano, que precisamos remir nosso tempo e viver para agradá-lo, e não para nos agradar ou agradar os outros.

A chuva cai para todos. Às vezes, só numa parte da cidade. Mas sempre cai, para justos e injustos. Estejamos preparados para ela.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A mãe desnecessária


Lá na minha igreja, temos um grupo de mulheres que se reúne uma vez por mês. Ou, pelo menos, tenta... É difícil conseguir marcar essa reunião. Uma, porque já temos uma infinidade de compromissos sempre (nem que seja compromisso nenhum). E, duas, porque ficamos na dependência da esposa do pastor: o dia que ela pode ir e também que ela pode fazer o estudo ou conduzir a reunião.

Mas a esposa do novo pastor, na primeira reunião que tivemos juntas, já foi logo dizendo: "Eu quero ser a esposa de pastor desnecessária". Antes que alguém a julgasse de preguiçosa ou de que estaria com má vontade de se reunir conosco, explicou: "Não quero que vocês dependam de mim para fazer a reunião. Quero prepará-las para continuarem se encontrando mesmo quando eu não estiver mais nessa igreja." E discorreu sobre seu propósito de nos ajudar a falar em público, a preparar um estudo bíblico, a compartilhar experiências etc., para que possamos caminhar com nossas próprias pernas e não ficarmos sempre contando com a "esposa do pastor". 

Foi aí que esse pensamento logo parou na minha casa: a mãe chata de hoje é a futura mãe desnecessária. A mãe chata se desgasta para se tornar desnecessária. A mãe chata tem trabalho hoje para não ter trabalho amanhã. Ela ensina e corrige quando ainda é tempo, para não ter que lamentar depois, para criar filhos felizes, saudáveis e responsáveis, conscientes de seu lugar no mundo.

Fiquei especialmente pensando sobre isso porque vou viajar sozinha (sem marido e filhos) por 15 dias. Como meus filhos ficarão nesse tempo? Sentirão minha falta? Será que meu marido vai cuidar deles direitinho? O que preciso organizar? Comprar lanches? Encher o freezer de congelados? Fazer lista de tarefas? Contratar faxineira para todos os dias? Motorista? Uber?

E agora? Me enlouqueço com tudo que tenho que organizar ou desisto da viagem? Ou eles que se virem? Se eu não organizar nada, eles sobreviverão? 

É lógico que a resposta sempre é o bom senso. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não vou desistir da viagem (é uma chance e tanto!) e também não vou deixar que se virem totalmente sozinhos: vou organizar o que eu puder organizar, mas sem perder o sono e sem me enlouquecer. Afinal, é para isso que venho sendo chata há tanto tempo: para que eles possam ficar bem na minha ausência. 

E isso eu tenho certeza que eles vão ficar. Eles sabem organizar o quarto e preparar um lanche sozinhos, e são responsáveis com suas tarefas e obrigações. Não dependem de mim para acordar para ir para escola, por exemplo. Se eu perco a hora, a casa já está de pé sem mim. Ninguém chega atrasado por minha culpa. E, se eu acordo atrasada e não tenho tempo para fazer o café, eles mesmos preparam seu leite e cortam o pão. Acreditem: não cai a mão! Eu também não fiscalizo se fez a tarefa de casa ou se estudou para a prova. Essa obrigação é personalíssima, assim como a consequência de não fazê-la.

Confesso que eu quero muito que eles sintam minha falta quando eu viajar, porque ser desnecessária não é não fazer falta, mas sim não ter ninguém dependente de você, quer material quer emocionalmente.  

E assim a vida segue por aqui... cada um com a sua, mas todos juntos (ainda que distantes por 15 dias)!