terça-feira, 25 de setembro de 2007

"É pela paz que eu não quero seguir admitindo"

Ontem, andando por um bairro da minha cidade em que predominam prédios residenciais, o Tomás me perguntou:

- Mãe, casa tem fio que dá choque e espinho. Por que prédio não tem?

A minha primeira reação toda vez que ouço esse 'mãe indagativo' é sempre de quase desespero. Penso: "ai, meu Deus, o que esse menino está querendo saber agora?". Mas, logo em seguida, eu respiro fundo e começo a raciocinar.

E, olhando para os prédios, entendi o significado da pergunta. A legenda finalmente apareceu: 'fio que dá choque' é a cerca elétrica e 'espinho' são aqueles obstáculos do muro em forma de.. espinho (ou lança, se preferirem).

Respondo: "Geralmente, as casas têm fio que dá choque e espinho porque é mais fácil para o ladrão entrar nelas. Mas muitos prédios também têm fio que dá choque e espinho".

Ele: "Mas os ladrões conseguem subir tão alto?"

Eu: "Às vezes, sim, por isso é preciso colocar essas coisas".

Ele, parecendo satisfeito com as minhas respostas (ufa!), diz: "Eu queria ver um ladrão".

Eu: "O quê é isso, filho? Deus me livre, eu não queria ver um ladrão nunca!"

Ele: "Não, mãe, eu queria ver um ladrão na televisão".

Ah, isso é fácil, principalmente se for político...

Mas tratei logo de encerrar o assunto. E depois fiquei pensando como isso é um tema recorrente de perguntas. Ele sempre quer saber porque os ladrões querem roubar, porque eles não aparecem, porque eles ficam escondidos. Na verdade, nós é que ficamos escondidos em nossas casas, presos pelos 'fios que dão choque' e pelos 'espinhos'.

Como diz aquela música do Rappa: "As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão".

Bem que eu queria não ter que responder porque existem 'fios de choque' e 'espinhos'...

domingo, 23 de setembro de 2007

"Caixas e bolas"


E mais um aniversário se passou...

A festa começou já tem um bom tempo, com os preparativos. A escolha do tema, o convite, a procura das idéias para a decoração, lembrancinhas, enfeites de mesa. Me divirto com tudo isso. Acho o máximo acertar cada detalhe. E adoro toda a trabalheira que tenho. Pra mim, é uma forma de demonstrar todo meu amor pelo aniversariante, como ele é importante e especial.

Acho que a "culpada" é a minha mãe. Me lembro bem dela preparando as nossas festas de aniversário. Ela fazia tudo: cortava, pintava e montava painéis da parede atrás da mesa do bolo; ensaiava teatrinhos pra gente representar; costurava as fantasias; organizava gincanas; fazia bolo e docinhos. E o pior é que, naquela época, não tinha nada já preparado de antemão nas lojas. Outro detalhe: a minha mãe é médica pediatra, atendia consultório, trabalhava o dia inteiro.

Os aniversários eram uma data tão especial que ela nunca comemorou junto o do meu pai e o da Fernanda, que nasceram nos dias 11 e 12 de setembro, respectivamente. Nem o do Aurélio e o dela, que são nos dias 28 de setembro e 01 de outubro. Muito menos todos eles juntos (o que poderia até ser razoável).

Mas não. Podia até ser uma festinha simples, mas cada um tinha seu dia.

As minhas lembranças são tão boas que quero repeti-las aos meus filhos. Quero que o dia do aniversário seja tão especial pra eles como sempre foi pra mim.

Quando eu conto que fui duas vezes a Campinas (bairro aqui de Goiânia que a gente acha de tudo, quase como a região da 25 de março em São Paulo), passei várias noites pintando os barquinhos da decoração das mesas (porque me recusei a contratar uma moça que me propôs como decoração, a R$8,00 cada um, um conjuntinho de baldinho e pá de areia envolto num pacote de papel celofane e laço), ninguém acredita e ainda acha que não vale a pena tanto trabalho pra economizar apenas alguns trocados. (Nota: encontrei em Campinas um porta-retrato de madeira em forma de barquinho, pintei, coloquei uma foto linda do meu filhote e ainda uma haste com balão, gastando com tudo, incluindo o material pra pintar, R$6,50 para cada um; nota 2: se quisesse o baldinho com papel celofane, comprado e embrulhado por mim, gastaria menos de R$4,00 - sem desconto para atacadista).

Tudo bem. A economia pode não ser lá grandes coisas - ainda mais se comparada a tanto trabalho -, mas quem paga o preço dessa recordação? Quem paga o preço por seu filho ter se sentido tão especial ao ver todo mundo envolvido com o aniversário dele? Ao ver pai e mãe (e ainda amigos!) pintando barquinhos depois de um dia duro de trabalho? Ao ver a tia e a avó fazendo bolo e docinhos? Ao ver tia, avó, tia-avó e mãe enrolando docinhos, embrulhando balas? Ao participar de tudo isso?

Não tem dinheiro no mundo que pague por uma festa assim.

Mas hoje a moda é diferente. A moda é fazer festa em buffet, festa pronta, sem trabalho, sem dor de cabeça, sem preocupação. Você paga a festa e é convidado. Chega e tudo está pronto, como num passe de mágica.

E o que mais me espanta é que isso se tornou um símbolo de status social. Pra ficar igual a todo mundo, tem gente que faz empréstimo pra pagar a festa, o buffet parcela em até 10 vezes (você respira um mês para no seguinte já começar a pagar a outra festa). A vida em prestações (afinal, será só mais uma mesmo, com a do carro zero, da casa no condomínio fechado, do pacote de férias para o exterior - qualquer lugar - e da TV de plasma de 40 polegadas).

Festa em casa? Só se for com mesa de bolo alugada. E, dependendo do lugar, uma mesa assim custa de R$400,00 a - pasmem - R$1.200,00 (só a mesa de bolo, com enfeites - da mesa de bolo -, alguns painéis e, com sorte, balões). Enfeites das mesas dos convidados e lembrancinhas para as crianças são cobrados à parte. É quase uma festa de buffet, com todos os requintes desta, só que em casa. Ih... mas ainda tem o trabalho de encomendar o bolo, os docinhos e os salgados. Sem falar na ida ao supermercado pra comprar o refrigerante. Ah não... melhor fazer no buffet mesmo.

Eu continuo com a minha teoria de faça-você-mesmo, agora da babá à festa de aniversário. E, definitivamente, não é pra economizar dinheiro. Não é porque não tenho dinheiro (eu poderia fazer um empréstimo...). É porque eu acredito que todos esses trabalhos - o cuidado diário e as datas especiais - são excelentes oportunidades de demonstrar aos nossos filhos o quanto os amamos, o quanto suas vidas são preciosas para nós, o quanto nos interessamos por eles, a ponto de abrir mão das facilidades pra ficar cansados e ver carinhas de alegria e satisfação mesmo com a festa simples que preparamos.


Mais um ano se passou e a próxima festa já está começando de novo. Alguém tem alguma idéia de tema pra me dar?

P.S. O título "Caixas e bolas" é referência a um livro infantil do Max Lucado, "Você é Meu". Os xulingos começaram a colecionar caixas e bolas. Bolas de todos os tipos e caixas coloridas (algumas especiais, com a etiqueta das lojas aparecendo). Todos os xulingos tinham caixas e bolas. Todos, menos Marcinelo. Como ele não queria ficar de fora, resolveu ficar igual aos outros. Faria o possível para ter o que os outros tinham (vendeu seus livros, começou a trabalhar à noite pra ganhar dinheiro extra, vendeu a cama e até a própria casa). Ele nunca imaginou que o preço seria tão alto. Eli, seu criador, aproveitou o momento para fazê-lo lembrar-se desta verdade: "Você é especial não pelo que você tem, mas pelo que você é. Você é meu. Eu amo você".

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Lógica 2

Segunda-feira de manhã, correria pra aprontar - como sempre -, e o Tomás não deixando o André brincar com os brinquedos dele. (É... as brigas 'fraternais' já começaram em casa. O André também começa a aprender a se defender. A confusão e os gritos que se seguem devem ser parecidos com os de toda casa que tem crianças pequenas).

O Hugo foi tentar apaziguar (afinal, o pequeno ainda é muito pequeno para se defender sozinho):

- Tomás, o André quer brincar com você, mas ele não entende como é que brinca ainda. Você tem que ensiná-lo.

- Mas, pai, eu não posso ensinar o André. Eu não sou professor.

Ele é que PENSA que não é...

Lógica

O aniversário do André se aproxima e começamos a entregar os convites. O Tomás é o responsável por essa parte. Já entregamos para os tios do Hugo em Anápolis e, ontem, aproveitamos o almoço e entregamos para os meus pais (a minha mãe gosta de guardar os convites dos aniversários).

- Vovó, olha, é o convite para o aniversário do André.
E, virando-se pra mim, perguntou:
- Vai ser lá em casa, mãe?
- Não, filho, vai ser aqui, na casa da vovó.
Alguns segundos pensativo e, depois, a constatação:
- Então, a gente não precisa entregar convite pra eles. Eles moram aqui.