
“Pode”, respondo sem nem pensar, já me antecipando a qualquer conflito que se seguiria caso a minha resposta fosse negativa. Mas a criança, não satisfeita, me pergunta instantes depois:
“Não, mãe, eu quero ter 10 anos. Eu posso ter 10 anos?"
“Pode também”, respondo com um sorriso.
Dessa vez, foi o irmão mais velho quem se encarregou de explicar que não adianta nada a mamãe deixar que ele tenha 10 anos. Ele não vai ter 10 anos. E outra: quando ele tiver 10 anos, o irmão terá 13, e continuará sendo mais velho.
Frustração geral. Se bem que eu comecei a desconfiar que, no fundo, ele já sabia que eu não tenho o poder de fazê-lo ser mais velho do que ele realmente é... A pergunta era só para ter certeza da nossa impotência.
Mas o fato é que o aniversário de 4 anos é uma idade importante para eles. A impressão que tenho é que, na cabecinha deles, com essa idade, eles finalmente deixam de ser bebês e passam a ser crianças. Não lhes tiro a razão. Acho que até mesmo nós pensamos assim.
Os preparativos para o aniversário começaram bem antes da data. Aliás, antes mesmo que passasse o aniversário do Tomás, que é no começo do mês de agosto.
No dia que fomos fazer compras de supermercado para o aniversário, percebi que o André, ao chegar em casa, começou a fazer toda sorte de má-criação (coisas absurdas do tipo: tentar destruir minha maquiagem e, imediatamente após a bronca por esse fato, começar a despejar o detergente na pia da cozinha). Coisas que ele não costuma fazer, por mais levado que seja. Pensei que só poderia ser ciúmes. Não tinha outra explicação!
Resolvi conversar com ele e explicar que, agora, era o aniversário do irmão, mas que logo, logo seria o dele, e que a mamãe iria fazer uma festa de aniversário muito legal pra ele também. Mudança de comportamento da água para o vinho. Ele realmente estava com ciúmes, coitado, e não sabia como se expressar.
Começamos, então, a planejar e escolher o “tema” do aniversário. Tentei induzir alguns temas diferentes: “Que tal Monstros S/A?” “Não. Eu quero do Pica-pau”. “Ah, não. Do Pica-pau eu me recuso a fazer. Escolhe outro”. “Então, eu quero do Power Rangers”. “Também não. Outro”. “Do Batman!” “Não, filho, a mamãe já fez esse aniversário para o Tomás...”
Muitos temas depois, escolhemos o do Shrek.
O convite foi a primeira providência – uma montagem de uma foto dele ao lado de uma imagem do Shrek e de outras criaturas encantadas do Reino de Tão Tão Distante: a princesa Fiona, o Burro e o Gato de Botas.
E a alegria dele era maior a cada detalhe da festa:
“Vovó, o convite do meu aniversário de 4 anos (era importante repetir a idade) já está pronto! Tem uma foto minha e do Shrek, e da Fiona, e do Burro, e do Gato de Botas. Ficou muito legal, vovó!!!”
O passo seguinte foi comprar alguns itens da decoração: copos, pratinhos e a vela de 4 anos. Quando cheguei em casa e mostrei tudo isso a ele, tive a real dimensão da importância da data. Ao ver a vela, os olhinhos dele brilharam e, após um suspiro, que misturava incredulidade com satisfação, ele exclamou baixinho:
_ 4 anos!!!
Era um sonho que se tornava realidade. Eu me emocionei com a cena. Me emocionei ao pensar em como as coisas são mágicas para uma criança, em como é simples fazê-las felizes.
E, finalmente, chegou o dia tão esperado! A felicidade dele era simplesmente contagiante. E não teve uma pessoa que não chegasse em mim pra comentar.
No dia seguinte, a irmã do Hugo que mora em São Paulo ligou para dar parabéns a ele. Ainda radiante com a nova idade, ele disse, todo importante:
"Tia Liliam, agora eu tenho 4 anos!""Mesmo, André?! Que legal!! E o que você vai fazer agora que tem 4 anos?”, ela provocou.
Sem hesitar, ele respondeu: “Agora que eu tenho 4 anos, tia Liliam, eu vou poder falar com uma criança de 3 e ela vai ter que me obedecer, porque eu sou mais velho!”
Sinceramente, eu não sei o que é mais preocupante: a sede de poder ou a opressão... De qualquer forma, esta aí:Enfim, André, 4 anos!

