sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Pais, avós e bisavós - segunda parte

O Tomás agora já entende que a vovó Delza é a minha mãe, que o vovô Edésio é o meu pai e que a vovó Vânia é a mãe do papai. E ele também já sabe que o pai do papai era o vovô Valter, que infelizmente já morreu.

Como vimos, ele também já aprendeu que a vovó Rodes é a mãe da vovó Delza e sua dusavó, ops, bisavó. Ela e a vovó Olinta (mãe do vovô Valter) são as únicas bisavós que ele conhece e realmente lembra, pois o vovô João (pai da vovó Delza) morreu quando ele tinha 1 ano e 2 meses. E os outros (vovô José Pedro e vovó Carmelinda, pais do vovô Edésio; vovô José Lisboa, pai do vovô Valter; e vovô José Pedro e vovó Corina, pais da vovó Vânia) faleceram bem antes de ele nascer.

Um dia, ele me perguntou:

_ Mãe, onde está o pai do vovô Edésio?

Eu expliquei que o pai do vovô Edésio era o vovô José Pedro, já falecido. Mas ele queria saber mais:

_ E a mãe do vovô Edésio, onde ela está?

Eu também contei pra ele que a mãe do vovô Edésio, a vovó Carmelinda, morrera logo depois que a mamãe e o papai se casaram.

Ele, então, intrigado, me perguntou:

_ E o vovô Edésio sabe se cuidar sozinho?

É, filho, os pais dele já morreram, mas eu acho que ele aprendeu, no tempo que eles ainda eram vivos, a se cuidar sozinho. A vovó Delza ajuda...

Pais, avós e bisavós

Esta a vó Rodes adora contar pra todo mundo...

Um dia, o Tomás estava na casa da minha mãe, e a vó Rodes também estava lá. Enquanto a minha mãe fazia o almoço e o Tomás insistia em ajudar, a vó Rodes tentava distraí-lo, puxando assunto com ele.

_ Tomás, você sabia que avó é mãe duas vezes?

Ele ouviu, mas não respondeu nada. Ela continuou:

_ Se avó é mãe duas vezes, a bisavó é avó duas vezes. Isso quer dizer que eu sou sua avó duas vezes, você sabia?

E ele só ouvindo...

Passou um pouco, a minha avó foi se sentar lá na sala, enquanto o Tomás continuava beirando a minha mãe e a ajudava a arrumar a mesa para o almoço.

Quando o almoço finalmente ficou pronto, a minha mãe pediu a ele que chamasse a vovó Rodes para almoçar. Ele foi:

_ Ô dusavó, vem almoçar!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Feliz Natal!

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Isaías 09:06)
Que, em meio a tanta correria que o fim de ano nos traz, possamos nos lembrar do primeiro natal, numa pequena cidade chamada Belém: um natal simples, sem luxo e sem conforto, mas onde os anjos davam glória a Deus pelo nascimento do nosso Salvador - Jesus Cristo, o Senhor.
Feliz Natal a todos!
Eleonora, Hugo, Tomás e André

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Pais de primeira (e segunda) viagem


O Tomás, como vocês bem sabem, nasceu sem babá. E assim ficou, por opção nossa. Escolhemos colocá-lo num berçário, por vários motivos, mas o principal é que eu simplesmente não conseguia imaginar uma pessoa desconhecida, sozinha na minha casa com meu filho, sabendo que ninguém iria aparecer por lá durante todo o dia. Até a pediatra do Tomás assim nos aconselhou.

Graças a Deus, tudo correu bem, o Tomás era um neném maravilhoso, quase não teve cólicas, mamava bem e com um mês já dormia 7 horas seguidas. É ou não é uma bênção? Mas... foi chegando o dia de voltar a trabalhar. Meu Deus, ninguém tinha me avisado que seria tão, mas tão ruim. 15 dias antes, ninguém podia nem me falar um simples "oi" que eu caía no choro.

E, no berçário, tinha a tal "adaptação".

Assim, lá fomos nós para a "semana da adaptação". A idéia era deixar o bebê algumas horas por dia e ir aumentando até o final da semana. O primeiro dia foi determinante para eu descobrir que a adaptação, na verdade, é da mãe, e não do bebê. Não permitiram que eu ficasse com ele lá. Me disseram que ele não poderia se acostumar com a minha presença no berçário, que ele tinha que saber que lá a mãe não estaria. Inexperiente, não questionei (e hoje eu sei que eles tinham razão). Falaram, então, que eu poderia ir embora pra casa e depois voltar pra buscá-lo.

Meio desnorteada, com a sensação de que tinham arrancado meu filho de mim, saí da escola, sem saber o que fazer. Lá fora, caiu a ficha: como assim, ir embora pra casa sem meu filho?!? Nunca! O que eu iria fazer lá sem ele? Completamente desorientada, fiquei andando pelas ruas do bairro, parecendo uma louca, andando sem rumo e chorando, até que achei que já tinha tempo demais que eu estava sem ele (durou quase uma hora) e resolvi voltar para buscá-lo.

E ele estava lá, numa boa, tomando um suquinho.

No outro dia, consegui voltar pra casa. Quer dizer, fui obrigada a voltar pra casa pois não dava pra chorar tanto na rua. Dá pra acreditar que, já no segundo dia da "adaptação", ele deu os bracinhos para a tia do berçário? Chorei copiosamente... Afinal, ninguém merece tanta ingratidão.

Mãe é tudo boba mesmo. Mas a mãe de segunda viagem consegue melhorar um pouco. Lembro-me da tia do berçário contando que tinha mãe que deixava o filho lá e nem olhava pra trás, já saía desesperada para os seus compromissos. E eu pensei: "que absurdo, como tem mãe desnaturada no mundo".

Ainda bem que eu tive o segundo filho, pra poder entender as mães desnaturadas (e me solidarizar com elas) ao me tornar uma.

Quando chegou a vez de o André ir para o berçário (escolhemos o mesmo destino pra ele, apesar de já morarmos em Goiânia), eu fazia exatamente como as mães "desnaturadas" do berçário lá de São Paulo. Largava na "adaptação" e saía correndo para os meus afazeres, que iam desde compras ao supermercado a idas ao salão de beleza.

Mas quando chegou o dia mesmo de voltar a trabalhar, também sofri por ficar longe dele (consegui conter o choro; quer dizer, chorei escondida), principalmente porque eu ainda o amamentava. C'est la vie!

As pessoas falam tanto do dia que o filho vai embora de casa, seja pra estudar fora, seja pra se casar; e falam com tanto sofrimento desse dia em particular que, quando nos tornamos pais, ficamos apavorados só de imaginar... Mas eu tenho percebido que esse "divisor de águas" não se resume a um único dia, começa muito, mas muito antes. Quer saber? Acho que começa no dia em que o filho nasce. A separação começa ali. Daquele dia em diante você começa a perceber que ele vai indo embora, cada dia um pouquinho mais.

Primeiro, ele começa a tomar suco e comer papinha. Depois, não quer mais saber de colo. Aí, ele vai para o berçário (ou vem uma babá pra tomar conta dele) e também para a escola. Em seguida, começa a pedir para dormir na casa dos avós. E você deixa. Até que chega o dia que ele dá o primeiro passo para a separação "de fato".

Passei por isso há 10 dias. O Tomás foi participar da "pijamola" da UCP - União das Crianças Presbiterianas. A "pijamola", pra quem não sabe, é a mistura de pijama com camisola, ou seja, é uma noite em que as crianças vão todas dormir no colégio da nossa Igreja. As atividades são tantas que, na verdade, elas não vão pra lá exatamente para dormir.

Eu o deixei ir e até incentivei sua participação, mas depois fiquei pensando que ele era muito pequenininho pra dormir fora, sem ser na casa de alguém da família. E o pior é que ele nem participava da UCP, pois, em tese, é apenas para crianças acima de 5 anos. A única pessoa que ele tinha mais intimidade lá era o Davi, meu sobrinho (de 5 anos...).

E lá foi ele, todo importante, de mochila e colchonete a tiracolo, enquanto meu coração só diminuía.

No dia seguinte, eu e o Hugo éramos os primeiros pais a chegar para o café da manhã - os demais, desnaturados (lógico!), que tinham mais de um filho na pijamola, aproveitavam a folga pra dormir um pouco mais. A segunda criança a dormir foi o Davi, às 2h da manhã. O Tomás dormiu apenas às 3h. E eu.. bem, melhor não contar que horas eu dormi.

Tudo isso porque ele nem chegou à idade de ir para o acampamento... Imagine como serão as outras etapas...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

"Bolsa família"

Esta é roubada das filhas da minha amiga Lorena.
Avós e tios que se prezem sempre gostam de perguntar o que a criança quer ser quando crescer. Assim, numa visita à casa da avó, um tio fez a pergunta clássica para a filha mais velha dessa minha amiga:
"Hanna, o que você quer ser quando crescer?"
A menina, então, respondeu que queria ser veterinária.
Enquanto a mais velha discorria sobre o seu amor, cuidado e proteção aos bichos de todas as espécies, a mais novinha, de 4 anos (ah, esses 4 anos...), estava quieta, só observando.
Foi quando dirigiram a pergunta também a ela:
"E você, Taísa, o que quer ser quando crescer?"
Ela pensou um pouco e respondeu: "Ah, acho que eu quero ser pobre mesmo, porque pobre ganha tudo das outras pessoas, ganha roupa, ganha brinquedo, ganha comida..."
E depois querem nos convencer que a política social do nosso governo está no caminho certo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Um homem que sorria com os olhos


Nunca me esquecerei do culto fúnebre do Sr. José Lisboa Ramos. O Rev. Aristeu, após ler duas passagens bíblicas (uma em Apocalipse 14:13, que diz: "Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham"; e outra em Salmos 116:15, que registra que "preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos"), disse que, quando chegou em Anápolis, o esperava na porta da Igreja "um homem que sorria com os olhos". E ele logo pensou: "Esse é o diácono".

Nunca me esquecerei, pois essa é a tradução mais perfeita daquele homem, que expressava a sua alegria de viver para Cristo, de servi-Lo através do diaconato, apenas com o olhar. Nunca me esquecerei, pois vejo essa característica se transmitir a outros homens dessa família, do teimosão - que era o Sr. José -, passando pelo teimoso - o Dr. Valter -, e chegando no teimosinho, o Hugo (atual teimosão, que já havia sido substituído pelo teimosinho Mateus).

É, as “categorias” de teimoso foram passando adiante, assim como a característica de sorrir com os olhos. O Hugo e o Tomás também sorriem com os olhos; o André, então, é a mais perfeita tradução do Dr. Valter, tanto fisicamente como no brilho do olhar (e também começa a mostrar suas “asinhas” de teimoso).

E é assim que eu sempre me lembrarei do Dr. Valter: como um homem que sorria com os olhos. Tudo bem, teimoso algumas vezes, "bravo" outras tantas, mas que, assim como o pai, também expressava sua alegria de viver para Cristo com seu olhar sorridente.

Esse homem de olhar sorridente, Valter Lisboa Ramos, nasceu em Coromandel-MG, no dia 03 de outubro de 1940, primeiro filho de uma família que já conhecia a palavra de Deus, alcançada pelo evangelismo do Dr. Divino Borges.

Viveu em Coromandel, onde seu pai trabalhava nos garimpos da região, até os 07 anos de idade. De lá foi para Abadia dos Dourados, também em Minas Gerais, para que ele e seus irmãos pudessem estudar. Foi em Abadia dos Dourados que pela primeira vez freqüentou uma igreja e começou, então, a ouvir falar do amor de Deus.

“Nas” Minas Gerais, viveu intensamente sua infância e parte da adolescência, andando sem rumo pela cidade e pelos campos e fazendas, nadando nos rios e córregos, comendo fruta do pé e ajudando sua mãe – a Dona Olinta – a criar os irmãos menores (inclusive escolhendo seus nomes, baseado sempre em personagens bíblicos, cujas histórias haviam sido aprendidas na Escola Dominical: Davi, Filemon, Eli e Enoch), enquanto seu pai passava boa parte do tempo fazendo frete – atividade pioneira à época.

Lá pelo fim da década de 50, o Sr. José Lisboa decidiu se mudar para uma cidade em Goiás – Anápolis – porque ouvira falar que lá havia abundante comércio e grande quantidade de fretes para caminhoneiros. O Dr. Valter e seus irmãos também foram, mas depois de alguns anos o “Valtinho” mudou-se para Goiânia, a fim de iniciar seus estudos de nível superior.

Em Goiânia, morava na Casa do Estudante Universitário, o CEU, enquanto estudava para ser médico – a 3ª Turma da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás –, e, para se sustentar e ainda ajudar a pagar os estudos de seus irmãos, dava aula de Química em cursinho pré-vestibular (ofício que, mais tarde, também exerceu no Seminário Presbiteriano Brasil Central, na disciplina de Ética, e na Escola Dominical da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia – quase sempre na classe do livro de Romanos, ensinando sobre a infinita graça de Deus).

Nessa época, esgotado pelos estudos (dizem que os primeiros anos do curso de medicina são muito difíceis, teoria distanciada da tão sonhada prática), viveu seu primeiro grande dilema: qual sua verdadeira vocação, médico ou pastor? O Sr. José veio de Anápolis para dar suporte ao filho. Pagou uma consulta psiquiátrica e depois deu uma passagem de ônibus para que ele fosse até Campinas-SP conversar com um pastor do Seminário Presbiteriano do Sul, único seminário presbiteriano da época. O pastor o aconselhou a exercer as duas profissões (ou os dois sacerdócios): ser médico e pastor. E, assim, ele decidiu ser médico e pastorear a vida de seus pacientes (e a de seus alunos também).

Em 1963, conheceu uma mineirinha, Vânia Lúcia Ribeiro Ramos, com quem se casou em 1968 e que esteve ao seu lado até o fim da vida. Dessa união nasceram três filhos: Miriam, Liliam e Hugo (que, por sorte, escapou de se chamar “Noirê”, nome de um índiozinho simpático que o Dr. Valter conheceu quando visitou, como médico, algumas tribos do Xingu, no Pará). E Deus também lhe concedeu a bênção de ver os filhos dos filhos: Mateus e Raquel (filhos de Miriam e Rogério), Gabriela (filha de Liliam e Jason) e Tomás (filho meu e do Hugo). Os dois mais novinhos não tiveram a chance de conhecer o avô: Isadora (filha de Liliam e Jason) e André (também meu filho e do Hugo).

Formou-se médico em 1967 e foi primeiramente trabalhar em Jussara, a convite de um colega de turma. Após 4 ou 5 meses, a sociedade se desfez e ele voltou para Goiânia. Logo após, recebeu um convite de um outro colega para ser sócio de um hospital também em Jussara – era, como dizem, o destino.

Assim, em 1968, levando a D. Vânia na garupa, seguiu seu rumo de volta a Jussara, onde por muito tempo ele e seu amigo foram os únicos médicos da cidade, fazendo partos com a luz escassa de uma lanterna (algumas vezes ajudado pela D. Vânia, companheira de todas as horas), "costurando" a barriga de baleados e esfaqueados, contando sempre com a graça de Deus no exercício de seu sacerdócio, sem nunca deixar de levar adiante a mensagem da cruz.

Nesse meio tempo, foi para São Paulo fazer residência em cirurgia cardíaca, a especialidade médica mais em voga na época, no renomado hospital Beneficência Portuguesa. Entretanto, seu espírito combativo não se coadunou com a prática dos dirigentes do hospital, que davam preferência aos estrangeiros que vinham ao Brasil aprender as novas técnicas da cirurgia cardíaca, e ele resolveu voltar para Jussara, pois, nos seus dizeres, preferia ser o pajé da tribo a ser mais um dos súditos no reino.

Em Jussara, realizou o sonho de ter um pedacinho de chão, parecido com as terras lá de Coromandel, das lembranças de sua infância, no meio de uma pequena serra de Goiás, no município de Santa Fé: a Fazenda Samambaia.

Em 1979, mudou-se novamente para Goiânia, dessa vez por causa dos filhos, que precisavam de uma escola melhor.

E, aqui, esse olhar sorridente deixou marcas em muita gente. Não são poucos os exemplos que posso dar de pessoas que foram influenciadas por seu testemunho de vida, principalmente quando esta estava chegando ao fim. Ele costumava dizer que a doença o fizera ansiar o céu; que Deus a utilizara para que ele pudesse se desapegar das coisas desta vida, preparando-o para a vida eterna. Ele se dizia tranqüilo em partir e certo de que Deus já havia cumprido o propósito designado para a vida dele.

Não sei se era bem isso que o Dr. Valter queria quando, numa das muitas vezes em que esteve internado antes de sua morte, me pediu que eu escrevesse seu "memorial", assim como ele fizera para o Sr. José Lisboa, seu pai, na comemoração dos 81 anos dele. Eu ia ao hospital, já mais tarde, quase depois do horário permitido às visitas, e ele ficava me contando da sua vida, das suas realizações, das histórias engraçadas que já tinha vivido e, principalmente, das mudanças que Deus operara em sua vida.

Tantas histórias boas que até hoje me arrependo por não ter feito anotações ou, quem sabe, gravado, pois muitos detalhes perderam-se pelo caminho.

Lembro-me de uma em especial. Certa vez, ele tinha marcado de ir para Goiânia. Uma senhora vizinha muito gorda tinha o costume de esperá-lo na porta de sua casa toda vez que ele ia pra Goiânia, querendo uma carona (ela obtinha informações privilegiadas com as enfermeiras do hospital e sabia exatamente o dia que ele iria para a capital). Ele era implicado com aquilo. Naquele dia, ele resolveu sair bem cedo e ainda por cima chovia forte. Ele pensou, aliviado: “Hoje ela não vai estar lá. Ainda bem”. Ledo engano. Debaixo da chuva torrencial, ainda escuro, ela o esperava bem em frente ao portão. A contragosto, ele ofereceu carona. Mais pra frente, as águas do rio haviam passado por cima da pequena ponte e, se não fora o carro estar tão pesado, ele teria sido levado pela correnteza. Que exemplo da providência divina! E que lição de amor ao próximo Deus lhe dera!

Outra história também envolvendo ponte e livramento de Deus integra a parte da sua vida em que Deus o ensinou a ser menos impulsivo. Irritado com o subdelegado de Santa Fé de Goiás – que insistia em abandonar os “cidadãos de bem” baleados ou esfaqueados (ou, muitas vezes, as duas coisas) na porta do hospital, sem nem ao menos providenciar os remédios para o tratamento –, ele correu com seu fusquinha, em plena madrugada, e o deixou atravessado na ponte, impedindo a passagem. Quando o subdelegado apareceu, ele o interpelou e exigiu que ele fosse buscar os remédios. O subdelegado não questionou a ordem e deu meia volta. Só depois o Dr. Valter se deu conta do risco que correu...

Várias outras vezes Deus livrou a vida do Dr. Valter – de perigos físicos e também, por que não dizer, espirituais –, moldando seu temperamento e ao mesmo tempo mantendo sua intrepidez, e, acima de tudo, apresentando-lhe Sua maravilhosa graça e infinita misericórdia. Mas, na hora certa, Deus o levou para si, retirando de nós aquele olhar sorridente, através de uma preciosa morte, aos 15/12/2004.

E, hoje, damos graças a Deus pela vida dele, Valter Lisboa Ramos.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Políticos

O Tomás e o Hugo voltavam pra casa sozinhos. No meio do caminho, o Tomás perguntou:
- Pai, qual é a mulher que você acha que é a mais bonita do mundo?
E o Hugo respondeu: "A mamãe! E você?"
- Eu acho que todas as mulheres que eu conheço são as mais bonitas do mundo: a mamãe, a tia Fernanda... Eu acho que elas são bonitas porque elas são magrinhas.
Ah, Tomás... você ainda vai conhecer muitas mulheres na sua vida... E, Fernanda, viu só? Ele acha que a gente é magrinha. 'Tá bom, né?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Índiozinhos

O André nasceu em Goiânia, no final do mês de setembro - época quente e seca aqui. Já o Tomás nasceu em São Paulo, no começo do mês de agosto, ainda frio por lá. Apesar de terem nascido em cidades e climas diferentes, os dois possuem a mesma mania: não gostam de calça nem camisa de manga comprida.

O Tomás só foi desenvolver esse estilo índio de ser depois de ir para a escola (até mesmo porque ele não tinha opção em São Paulo). Hoje, ele não aceita nem bermuda comprida. A justificativa é a sua mania de ser Forrest Gump: atrapalha a correr. Por isso, ele gosta é de short curtinho e tênis (ah, esqueci de dizer que, sob o mesmo argumento, ele também não usa sandália). Mas, quando está em casa, ele gosta mesmo é de ficar só de cueca.

O André, que só foi usar uma camisa de manga comprida lá pelos 8 meses de vida - e, mesmo assim, deve ter sido por no máximo umas 5 vezes -, também não gosta dessa peça do nosso vestuário. Chora, puxa a camisa tentando tirá-la, o maior sofrimento. O mesmo acontece com a calça comprida, a jardineira, o tênis, as meias... Acho que, se pudesse, ele não ficaria nem de fralda.

Bem que meu avô falava que a bisavó dele era índia. Deve vir daí a mania dos dois.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Conversa alheia

Esta também aconteceu já tem um tempo...
Saímos um dia à noite para lanchar no "Xis-Tchê", sanduicheria aqui em Goiânia. Lá chegando, encontramos uma professora da escola do Tomás. Logo em seguida, chegaram mais duas professoras. Ao vê-las, o Tomás disse, todo felizinho: "Olha, mamãe, mais prôs!" (Prô é a abreviatura 'moderna' de professora; ninguém as chama mais do nosso 'antigo' tia).
Elas se sentaram à mesa bem ao lado da nossa. O Tomás ficou de costas pra elas. Curioso com a conversa animada que elas travavam, ele se virou e ficou observando-as, atento nas palavras delas (eu diria que atento até demais), sem nem ao menos se preocupar em disfarçar sua curiosidade.
O Hugo, então, chamou a atenção dele, mandando-o se virar para frente de novo, pois era muito feio ficar ouvindo a conversa dos outros.
Ele se virou, mas disse (enquanto apontava o dedinho para trás): "Eu continuo ouvindo a conversa, mesmo virado."

Velhos amigos, novos amigos

O Davi, ciumento que só (nada é roubado...), não gostou de o Tomás ter feito novas amizades em um churrasco dos amigos do tio Adriano, na casa da vovó Delza e do vovô Edésio. Dias depois, ele ainda se lembrava dessa história...
Eles se encontraram e o Davi foi logo falando que não era mais amigo do Tomás porque o Tomás tinha novos amigos. O Tomás, chateado, insistia com o Davi que não tinha deixado de ser amigo dele por causa disso.
Eu e a minha mãe tentávamos contemporizar a situação até que o Davi disse que tudo bem, ele seria amigo de novo do Tomás se o Tomás não fosse mais amigo "daqueles outros meninos".
Eu, então, intervim e disse que amigo de verdade não impõe condição para ser amigo, ao que o Tomás completou:
"É mesmo, Davi, quando a gente é amigo a gente não se informa se o outro tem outros amigos."
Concordo. Nós tanto não nos importamos com as demais amizades do amigo como nem queremos ser informados delas.

Por quê? (ou... perguntas sem respostas)

"Mãe, por que você fica contando pra todo mundo tudo o que eu falo?"
"_ Mãe, onde fica o cérebro?
_ Na cabeça.
_ Na cabeça?!?? E quem pôs ele lá dentro?"

"_ Pai, por que as pessoas não voam?
_ Porque elas não têm asas.
_ Por que o super-homem não tem asa e voa?"

"Mãe, por que o seu banheiro é pregado no quarto e o meu é pregado no corredor?"

"Vovó, por que o seu peito escorregou? O meu não é assim não..."

"Mamãe, por que o seu peito fez essa voltinha?" (arrrgh... por causa sua e do André!!)

"Por que as mamães não viajam nunca? Só os papais viajam?"
"_ Tio Hugo, na fazenda do seu amigo tem cavalo?
_ Tem.
_ A gente vai poder andar?
_ Não.
_ Por quê?
_ Porque os cavalos são bravos.
_ Por que os cavalos são bravos?
Hugo já impaciente: _ Não sei, Mateus.
(Pausa para reflexão...)
_ Tio Hugo, eles são bravos porque eles nasceram bravos."

E, pra terminar, uma da Flaviane, minha prima, que ficou na história (se bem que, passados apenas 3 dias do Dia da Consciência Negra, pode aparecer alguém que diga que ela não é politicamente correta):
"Mãe, leite de 'mãe preta' vem com toddy?"

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Aprendizado

Nunca gostei de falar com criança de maneira infantilizada, sem pronunciar direito as palavras, usando diminutivos ou falando errado. E foi assim que também decidi criar meus filhos. Converso com eles desde recém-nascidos (graças a Deus, nunca passei pelo ridículo de ficar conversando com a barriga, antes que eles nascessem) e sempre procurei falar de maneira correta, acreditando que assim é a forma mais fácil de eles aprenderem, desde cedo, a nossa língua.

Acho que tem dado certo.

O Tomás sempre nos surpreende usando os verbos na conjugação correta e, com apenas 4 anos, acerta até mesmo na flexão do infinitivo - coisa que muita gente boa erra. O Davi, meu sobrinho, é outro que fala naturalmente "igual a mim" enquanto neste caso muita, mas muita gente boa mesmo fala "igual eu".

Mas a nossa língua é muito complexa e, na verdade, até mesmo nós, adultos, estamos (ou pelo menos deveríamos estar) em constante aprendizado, porque vira e mexe somos surpreendidos com alguma dúvida.

A minha mãe me contou que há uns dias o Tomás estava procurando uma bola de futebol na casa dela.

"Vovó, você viu a bola de futebol?"

"Vi, Tomás, estava lá na sala".

"Vovó, não 'tô achando. Cadê-la?"

É... leva tempo pra gente aprender que, em matéria de português, nem tudo é tão lógico como pensamos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Consciência ecológica


Esta o Hugo acabou de me contar.

Hoje, o Tomás resolveu que iria tomar banho sozinho para ir à escola. O Hugo deixou, mas ficou lá por perto. E viu que o Tomás abria e fechava o chuveiro a todo instante. Abria um pouquinho e fechava; abria outro pouquinho e fechava de novo. O Hugo, intrigado, foi verificar.

"Tomás, por que você está abrindo e fechando o chuveiro?"

E ele, todo senhor de si, respondeu: "Pai, é pra não desperdiçar água. Você não sabe que a água do mundo está acabando? Se a água do mundo acabar, não vai ter água pra eu tomar banho quando eu ficar grande".

Aprendeu direitinho. Ah, se todos tivessem essa consciência ecológica... A água do mundo não estaria acabando.

Regra de 3

E todo dia, na hora do almoço ou do jantar, é a mesma história: "Mãe, posso tomar suco?" E eu respondo sempre a meeesma coisa: "Agora não, só depois que você terminar de comer". Em seguida, eu sempre ouço alguma reclamaçãozinha, a maioria das vezes já resignada. Hoje, ele retrucou:

"Por que sempre tem essa regra de poder tomar suco depois de comer?"

Ai... lá vou eu tentar dar alguma razão que não seja o tão desejado - pelo menos por mim - "porque sim". [E o pior é que, se eu sucumbo à vontade de responder porque sim, ele sempre fala: "Porque sim (ou porque não) não é resposta, mãe"].

"Filho (pausa para respirar...), se você tomar o suco primeiro, você não vai mais querer comer e não vai ficar forte".

"Mãe, mas é só você pegar dois limões e fazer o suco pra mim..."

"Tomás, de-pois que vo-cê ter-mi-nar de co-mer."

Mas quem conhece o Tomás sabe que ele não pode perder a discussão. Então, ele tratou logo de dar solução ao problema:

"Mãe, você me ensina a fazer suco de limão? Aí, eu vou saber fazer o suco sozinho e você não vai ter mais que fazer suco pra mim."

Respondi apenas um " bom" e continuei comendo e dando comida pra ele e para o André (mãe é assim mesmo, multivalente).

Ele, não satisfeito, continuou:

"Mãe, mas vai ter 3 regras, viu? Uma: NÃO é pra falar 'Tomás, eu posso te ajudar?' E duas: Eu consigo. E três... (ele esqueceu qual era a regra 3 que ele tinha acabado de inventar) É... E três: você não sabe que eu sei fazer suco sozinho, tá?"

Depois de tanta veemência, quem ousa discordar de tais regras? (E o mais engraçado é que ele começou me pedindo pra ensiná-lo. Agora, ele já sabia. Vá entender...)

sábado, 10 de novembro de 2007

Coleções

A primeira coleção do Tomás foi de bolinha. Sabe? Dessas bolinhas pequenininhas, de borracha, que quicam alto e que geralmente são vendidas em máquinas que ficam em shoppings. A primeira bolinha dele foi comprada, na verdade, na estação Santa Cruz do metrô em São Paulo, quando a gente ainda morava lá (ou seja, ele tinha mais ou menos 1 ano de idade). Daí em diante, não parou mais. Ele tem um monte dessas bolinhas. E era pra ter mais, considerando que elas se perdem facilmente. (Essa mesmo, a primeira, ele perdeu aqui em Goiânia, jogando-a pela janela do nosso prédio. Eu tive que descer e procurá-la na rua, mas não conseguimos encontrar, pra tristeza dele).

Um dia, estávamos em um restaurante e lá tinha uma máquina dessas. Ele imediatamente pediu ao Hugo uma moeda pra comprar uma bolinha. Como ele já tinha muitas, o Hugo negou. Ele, então, foi direto ao garçom: "Você me dá uma moedinha?" Assim, bem descarado, com uma carinha de pedinte que fez dó, a mãozinha estendida, aguardando a "doação". O garçom, lógico, deu a moedinha pra ele e o Hugo não teve outro jeito a não ser retribuir quando veio a conta.

Depois da coleção de bolinhas (que ele de vez em quando ressuscita - é só ir a algum lugar que tenha a tal da máquina), teve a coleção de carrinhos da Hot Wheels. E é impressionante como ele sempre encontra alguém para alimentar a coleção dele. O tio Aurélio, por exemplo, adora contribuir e sempre aparece com mais um carrinho pra ele.

Mas agora o que me impressionou mesmo foi a nova coleção que ele arrumou.

Um dia depois do tombo que ele levou lá na casa da vovó Delza, eu estava arrumando-o pra sair e, sem querer, apertei o machucado dele no peito. Ele reclamou e disse:

"Olha, mamãe, eu tenho muitos machucados: um machucado (apontando para o corte da hérnia inguinal), dois machucados (dessa vez, o do umbigo, que não dá pra ver, mas que ele sente), três machucados (o arranhão da perna) e quatro machucados (o do peito, que eu acabara de apertar)".

"Nossa, filho, você está fazendo coleção de machucados agora?"

E ele, com cara de quem gostara da idéia: "É mesmo! Eu não sabia que eu tinha essa coleção também".

O pior foi ter que ouvir o Hugo se gabando que ele já tivera coleção maior: "Uma vez, quando eu tinha 7 ou 8 anos, eu tive doze machucados nas férias".

Coisa de menino. Imagino ainda que ele não deve ter considerado os machucados feitos por cima dos machucados antigos (como geralmente ocorre nos joelhos e nos cotovelos). Ai, ai, tomara que a "coleção" do Tomás não chegue a tanto... Nem a do André!

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Conversa de doido

O Tomás aprendeu a palavra normal, no sentido de que não é muito nem pouco, é normal; não é pequeno nem grande, é normal.
Assim, um dia ele me surpreendeu com a seguinte constatação:
"Mamãe, eu não sou nem adulto nem criança, eu sou normal, viu?"
(...) ?!??

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Dica

Quer fazer seu filho pequeno pegar logo no sono? Então finja que tem todo o tempo do mundo pra isso... Se o danadinho percebe que você está com pressa ou pretende fazer alguma outra coisa, vai chorar assim que você o puser no berço ou sair do quarto. Aqui em casa é assim...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Saci-pererê


O Tomás se machucou hoje, na casa da vovó Delza. Ele subiu na carretinha do tio Lelo, na parte mais leve, ela virou para trás e ele caiu. Por causa disso, ele não foi à escola.

Quando fui buscá-lo, perguntei o que acontecera, como fora o tombo, onde ele se machucara. E ele foi me contar:

"Mãe, eu subi na carretinha e caí, machuquei aqui no meu peito e também na perna."

Fiquei assustada ao ver, porque o arranhão na perna foi grande e eu tinha pensado que não era nada. No peito, o machucado também era grande e ele tinha dois curativos.

"É, mãe, eu podia ter cortado a perna. (pausa). Eu podia ter cortado até o osso." (Será que o corte iria até o osso ou, na verdade, ele poderia ter quebrado o osso?). "Eu podia ter ficado sem andar" (Imagino que deve ter sido esse o drama que ele fez pra convencer a vovó Delza a não levá-lo à escola. Ou será que essa foi a bronca que ele ouviu da vovó Delza?)

Uma pausa maior e a pergunta: "Mãe, como é que o Saci-pererê perdeu a perna dele?"

Quem souber a resposta pode tratar de me ajudar, viu?

Cabelo liso e cabelo...?

Mal tinha amanhecido e lá estava ele, já de sunga, me pedindo insistentemente pra ir nadar. Eu não podia acreditar. Segunda-feira pós feriadão... Mas, como dizem, não basta ser mãe, tem que participar. Topei. "Só um pouquinho, viu, filho? Daqui a pouco a mamãe tem que ir trabalhar." A carinha de satisfação me deu um ânimo maior.
A água estava uma delícia, talvez por causa do calor que tem feito nos últimos dias (ou melhor, semanas...), mas também porque eu estava, numa bruta segunda-feira, brincando com meu filho na piscina. Pensando bem, era uma excelente idéia. Brincamos um pouco e logo depois, como combinado, fomos nos arrumar.
No banho, quando fui lavar o cabelo dele, ele me perguntou: "Mãe, esse xampu é pra cabelo liso?" (Ai, alguém merece? Isso é culpa da vovó Vânia que foi com ele comprar xampu num dia em que eles foram à fazenda. Foram ao supermercado lá em Jussara especialmente pra isso, enquanto esperavam o Hugo atender no consultório. Então, olharam xampu por xampu e escolheram o Crescidinhos, da Johnson's, para cabelos lisos. Desde então, vira e mexe ele me pergunta isso).
Devolvi a pergunta: "Tomás, o que é cabelo liso?" Ele: "Cabelo liso é assim... liso."
Percebendo que ele não sabia explicar direito, mudei a pergunta: "Qual é o contrário de cabelo liso?" E ele me respondeu: "É o cabelo curvo, assim... igual o seu".
E depois duvidam quando eu digo que o que me falta é tempo para escrever, e não inspiração.

Bombom gordinho

Precisava ir à locadora devolver um filme e o Tomás foi comigo. Não era a melhor idéia, já que agora a Blockbuster é junto das Lojas Americanas. Assim que ele desceu, já foi me perguntando se poderia comprar alguma coisa. Eu respondi que não e ele: "nem um bombom gordinho?". Tá bom, um bombom gordinho.

Tradução para "bombom gordinho": é todo bombom que é... gordinho, ou seja, sonho de valsa, serenata de amor, ouro branco, sensação, chomp. O Tomás adora qualquer um deles, basta ser "gordinho". O Davi, ao contrário, gosta do nosso antigo Lolo, atual Milkbar, um bombom "magrinho", como o Tomás também definiu.

E Lojas Americanas que se preste tem zilhões de bombons gordinhos, em divisões de vidro imensas para uma criança. Ele ficou na maior dúvida sobre qual escolheria. Me pediu ajuda. Eu sugeri um rosa (sonho de valsa) e ele escolheu um amarelo também (serenata de amor) - acabou me convencendo a levar dois bombons gordinhos pra ele.

Na saída, estava lá eu concentrada no trânsito, querendo ver se conseguia com que alguma alma caridosa me deixasse sair do estacionamento da locadora debaixo da chuva que caía ontem à noite em Goiânia, quando ouvi um "huummm...." vindo do banco de trás do carro.

Não dei bola para o "huummm..." e continuei na minha espera. E, como não dei bola, o Tomás tratou logo de me perguntar:

"Mãe, você ouviu esse 'huummm' que eu fiz?"

Eu: "Ouvi."

E ele: "Você sabe por que eu fiz esse 'huummm'?"

Eu: "Não, por quê?"

Ele explicou: "Esse 'huummm' quer dizer que esse bombom gordinho rosa está gostoso muito mais do que gostoso".

Realmente, filho, bombom gordinho é tudo de bom. Sonho de valsa então.. Me deu vontade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"Fome come"


Esta aconteceu em julho de 2006. O Tomás não tinha nem 3 anos.

Já era tarde. O jantar estava demorando a ser servido e ele já reclamava de fome. Também, não sei que idéia foi essa de levar criança a festa de casamento. Mas é o tal negócio: casamento do primo em outra cidade, não tínhamos com quem deixar (e acho mesmo que nem queríamos deixar) e outras crianças também iriam. Além disso, ele já não comia mais papinha da Nestlé e a gente foi enganando com outras coisas até a hora do jantar.

Mas chega um momento em que você não agüenta mais bobeira e a sua fome é mesmo de arroz. E o Tomás é bem assim, ele gosta de "arroz, feijão e carninha". Chegara essa hora e ele não parava de reclamar que queria "papar".

Eu disse pra ele esperar só mais um pouquinho, porque o garçom já iria servir o jantar. Ele me perguntou quem era o garçom. Eu mostrei e me distraí. Quando vi, o Tomás já estava lá, pedindo ao garçom: "Você põe 'papá' pra mim?" Imagina se o garçom não serviu... Quem resistiria a um pedido desses?

E lá foi o Tomás, feliz da vida com seu arroz com 'carninha', e o pessoal perguntando pra ele como ele conseguira se servir antes de todos.

Sabe, tenho consciência da minha bênção de ter dois filhos que comem bem desde sempre. Comem muuuito bem, aliás. Esses dias pedi cópia das anotações feitas pela pediatra do Tomás quando morávamos em SP, porque na mudança para Goiânia havia perdido as minhas. Ri muito quando li o comentário dela de quando ele começou a comer papinha de fruta. "Aceitou bem a fruta. Come 2 bananas".

DUAS bananas! Pensando bem, é muito para um bebê de 4 meses. É muito até pra gente, que já é adulto. Mas aqui em casa é assim. O André também come 2 bananas e mama 250 ml de leite (o mesmo que o Tomás toma hoje, aos 4 anos - e acho que o mesmo que eu também tomo).

E me admira também a independência deles. Se o assunto é comida, não existe isso de ter vergonha de pedir. Ninguém passa fome, nem mesmo o André. Quando ele quer mamar, pega a nossa mão e nos leva até a cozinha, apontando para o filtro e falando um monte de coisas meio ininteligíveis. A gente entende o pedido e faz a mamadeira. Agora, ele deu pra pedir comida também. Se estou dando comida para o Tomás, ele vem correndo, já abrindo a boca, querendo o seu pedaço.

Viajei neste fim de semana e eles ficaram com o Hugo. Lá pelas 4h da tarde, o Hugo deu uma pêra para o André (que comeu tudo!). Uma hora e meia depois, ele fez uma mamadeira para o Tomás. Pra quê... Quando o André viu, foi logo reinvindicar a sua, puxou o Hugo para a cozinha e começou a reclamar. Só sossegou quando o Hugo deu o jantar dele adiantado (comeu tudo também!). Afinal, como dizem, pêra e maçã abrem o apetite, né?

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ainda sobre doenças

A hérnia inguinal do Tomás foi diagnosticada pelo Hugo, durante um banho. Era bem discreta. Mas, mesmo assim, resolvemos operar logo. Como disse o pediatra, "hérnia diagnosticada é hérnia operada".
Quando fomos contar para ele, a primeira reação - óbvio - foi dizer que não queria. Explicamos que não iria doer, que ele iria dormir e só depois o médico cortaria a barriga dele e faria a cirurgia.
Ele ficou intrigado com isso, "não vai doer?". Repetimos a explicação e ele, então, perguntou: "mas eu vou sentir?" A impressão que tive é que ele continuava sem entender, foi como se dissesse: "mas como não vai doer? eu não vou sentir cortar?"
Quando finalmente a cirurgia passou, ele viu que estávamos falando a verdade e contava isso pra todo mundo.
O Adriano, meu irmão, foi o primeiro a ligar e quis falar diretamente com ele. Ele foi logo explicando: "Tio Adriano, não doeu nada e eu também não senti. Eu soprei um balão e dormi. Aí, o médico cortou a minha barriga, mas eu não vi nada. Só depois que eu acordei".
É.. graças a Deus pela anestesia!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

"É só uma virose"


Muita gente se irrita com o diagnóstico acima. Dizem que é impreciso, vazio de significado (é qualquer doença provocada por vírus) e chegam até a questionar a competência dos médicos, afirmando que, quando eles não sabem o que é, saem com essa de "virose".

Nariz escorrendo, tosse, diarréia, febre, vômito, tudo é resumido em virose.

A indignação também surge por causa do caráter simplista do diagnóstico, que quase sempre vem acompanhado das frases: "não se preocupe; vai passar; não é nada de mais; é uma virose".

E a mãe, nervosa e cansada, pensa: " uma virose porque não é com o filho dele... não é ele quem vai ter que ficar noites sem dormir, com o filho ardendo em febre, sem vontade de comer ou mesmo brincar, com o ar abatido, olhos tristes..."

É... é muito ruim ver nossos filhos doentinhos, ver que tiraram o sorriso do rosto deles, ver os brinquedos espalhados pela casa sem alguém que os queira, ver a mamadeira cheia de leite.

Tentamos encontrar o consolo com o nome de uma doença, uma definição, um tratamento, qualquer coisa que faça com que o estado deles melhore. Mas virose nem nome de doença é. E, pra completar o desespero dos pais, não há nada que se possa fazer, pois não há tratamento para ela. Pode-se apenas aliviar os sintomas com repouso, hidratação, antitérmicos e analgésicos. E, depois disso, só nos resta esperar.

Mas eu tenho tentado pensar diferente. E não fico mais irritada ou indignada com o diagnóstico da virose. Pelo contrário, dou graças a Deus.

Dou graças porque a virose é uma "doença visita": chega sem avisar, perturba a paz da casa e, depois de 3 ou 4 dias, arruma a mala e vai embora. Pode até voltar no mês que vem, mas vai embora. E a criança, então, volta a sorrir, a brincar, a comer de tudo, exatamente como sempre foi. Pior seria se ela viesse pra ficar, se instalasse no melhor quarto da casa e, apesar de todas as nossas 'diretas', não fosse embora nunca...

Já passei alguns sustos com virose. E agradeci muito, muito mesmo, por ser "apenas uma virose".

O Tomás, quando tinha 9 meses e ainda morávamos em São Paulo, teve uma virose bem "braba". Me ligaram do berçário, febre de 39 graus. Autorizei as nove gotas de novalgina e pedi pra darem um banho. Liguei para o Hugo e fomos buscá-lo. Lá chegando, falaram que, no banho, perceberam umas manchinhas no corpo.

Em casa, decidi ligar para a pediatra, mas já passavam das 6h da tarde. Só ouvi a recomendação-ordem: "Eleonora, febre alta e mancha no corpo tem que olhar a criança. Leva para o pronto-socorro agora". Não pensei duas vezes.

No pronto-socorro, a pediatra examinou-o e disse para o Hugo: "Você é médico, eu vou falar: o baço dele está aumentado e essas manchas no corpo são petéquias. Você acha que aumentou?" E eu lá, ignorante e ignorada, querendo que alguém me explicasse o que eram petéquias. Em seguida, perguntou: "Ele tomou a vacina contra meningite?" Eu respondi bem rápido (afinal, era a única coisa que eu sabia): "Tomou". Ela: "É, mas mesmo assim corre-se o risco. Nós vamos fazer um exame de sangue e, dependendo do resultado, colher o liquor. Vocês podem aguardar".

Já íamos saindo quando ela nos chamou de volta e falou pra ficarmos em uma outra sala, isolados. A sensação de impotência e abandono foi instantânea. Olhei pro Hugo e perguntei: "É grave?". E ele, na calma que lhe é peculiar, mas com o olhar bem preocupado, disse: "Se for o que ela está suspeitando, é". Eu: "Posso ligar pra minha mãe?" (...)

Duas horas depois, o alívio: "é só uma virose". Ufa!!! (E a minha mãe bateu à porta do meu apartamento no outro dia, às 7h da manhã, no vôo mais cedo que ela conseguiu, mesmo sabendo que já estava tudo bem).

O André teve esse mês a primeira virose brava dele, também com manchinhas no corpo. Mas não eram petéquias (que agora eu sei como são e o que são; parecem pequenas manchinhas de sangue, do tamanho de uma cabeça de alfinete e indicam que as plaquetas estão baixas - se ficarem muito baixas, pode causar uma hemorragia interna). Experiência que traz tranqüilidade.

Mas, pra completar, coincidiu com a primeira cirurgia do Tomás, que foi operado de hérnia umbilical e inguinal. De novo, as palavras do médico: "não precisa se preocupar; a cirurgia é simples, rápida; tem alta no mesmo dia; em cinco dias já pode voltar à escola".

Confesso que me esforcei ao máximo pra tentar acreditar nisso, mas quando o vi voltando do centro cirúrgico, com aquela carinha assustada, sem saber o que acontecera, e depois, em casa, andando devagar e meio curvado por causa da dor, fiquei com dó e pensei que não era tão simples assim, que o médico tinha exagerado na 'simplicidade'.

Mas, no fundo, sem querer ser Polyanna, sei que poderia ser pior, que a cirurgia era simples sim, que era tipo uma virose, uma doença-visita. Não tem nem 5 dias que ele foi operado e eu já tenho que ficar dando bronca pra ele não pular do sofá.

Aos médicos, meu pedido de perdão e minha homenagem por dedicarem suas vidas a tratar desses pequenos e tentar aliviar dores de pais e filhos.

(18 de outubro, dia do médico)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Leão, leopardo e "leão pardo"

Um belo dia e somos surpreendidos com nossos pequenos já falando de tudo, argumentando e, principalmente, inventando palavras.

Acho uma graça ver o André tentando imitar os sons que fazemos; gritando por "ma-mã-í" e "pa-pa-í"; pegando o telefone, digitando números para depois falar "a-ô, vovô"; chamando o Tomás de "Tom-tom" com a voz mais aguda que possui, e pedindo "áua", muita "áua" (tradução: água).

Mas também me fascina a capacidade de argumentação do Tomás e as suas convicções.

Há uns dias ele me pediu para brincar com ele de "leão pardo", ele seria o "leão pardo" feroz e muito rápido, que iria correr atrás de mim.

Eu o corrigi, dizendo: "Filho, não é 'leão pardo', e sim leopardo".

E ele, mais rápido ainda, contra-argumentou: "Mãe, existe leão, existe leopardo e existe 'leão pardo'. Hoje, eu sou o 'leão pardo'".

Não tive outro caminho senão concordar. Afinal, se não me engano, todos os leões são mesmo pardos.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

"É pela paz que eu não quero seguir admitindo"

Ontem, andando por um bairro da minha cidade em que predominam prédios residenciais, o Tomás me perguntou:

- Mãe, casa tem fio que dá choque e espinho. Por que prédio não tem?

A minha primeira reação toda vez que ouço esse 'mãe indagativo' é sempre de quase desespero. Penso: "ai, meu Deus, o que esse menino está querendo saber agora?". Mas, logo em seguida, eu respiro fundo e começo a raciocinar.

E, olhando para os prédios, entendi o significado da pergunta. A legenda finalmente apareceu: 'fio que dá choque' é a cerca elétrica e 'espinho' são aqueles obstáculos do muro em forma de.. espinho (ou lança, se preferirem).

Respondo: "Geralmente, as casas têm fio que dá choque e espinho porque é mais fácil para o ladrão entrar nelas. Mas muitos prédios também têm fio que dá choque e espinho".

Ele: "Mas os ladrões conseguem subir tão alto?"

Eu: "Às vezes, sim, por isso é preciso colocar essas coisas".

Ele, parecendo satisfeito com as minhas respostas (ufa!), diz: "Eu queria ver um ladrão".

Eu: "O quê é isso, filho? Deus me livre, eu não queria ver um ladrão nunca!"

Ele: "Não, mãe, eu queria ver um ladrão na televisão".

Ah, isso é fácil, principalmente se for político...

Mas tratei logo de encerrar o assunto. E depois fiquei pensando como isso é um tema recorrente de perguntas. Ele sempre quer saber porque os ladrões querem roubar, porque eles não aparecem, porque eles ficam escondidos. Na verdade, nós é que ficamos escondidos em nossas casas, presos pelos 'fios que dão choque' e pelos 'espinhos'.

Como diz aquela música do Rappa: "As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão".

Bem que eu queria não ter que responder porque existem 'fios de choque' e 'espinhos'...

domingo, 23 de setembro de 2007

"Caixas e bolas"


E mais um aniversário se passou...

A festa começou já tem um bom tempo, com os preparativos. A escolha do tema, o convite, a procura das idéias para a decoração, lembrancinhas, enfeites de mesa. Me divirto com tudo isso. Acho o máximo acertar cada detalhe. E adoro toda a trabalheira que tenho. Pra mim, é uma forma de demonstrar todo meu amor pelo aniversariante, como ele é importante e especial.

Acho que a "culpada" é a minha mãe. Me lembro bem dela preparando as nossas festas de aniversário. Ela fazia tudo: cortava, pintava e montava painéis da parede atrás da mesa do bolo; ensaiava teatrinhos pra gente representar; costurava as fantasias; organizava gincanas; fazia bolo e docinhos. E o pior é que, naquela época, não tinha nada já preparado de antemão nas lojas. Outro detalhe: a minha mãe é médica pediatra, atendia consultório, trabalhava o dia inteiro.

Os aniversários eram uma data tão especial que ela nunca comemorou junto o do meu pai e o da Fernanda, que nasceram nos dias 11 e 12 de setembro, respectivamente. Nem o do Aurélio e o dela, que são nos dias 28 de setembro e 01 de outubro. Muito menos todos eles juntos (o que poderia até ser razoável).

Mas não. Podia até ser uma festinha simples, mas cada um tinha seu dia.

As minhas lembranças são tão boas que quero repeti-las aos meus filhos. Quero que o dia do aniversário seja tão especial pra eles como sempre foi pra mim.

Quando eu conto que fui duas vezes a Campinas (bairro aqui de Goiânia que a gente acha de tudo, quase como a região da 25 de março em São Paulo), passei várias noites pintando os barquinhos da decoração das mesas (porque me recusei a contratar uma moça que me propôs como decoração, a R$8,00 cada um, um conjuntinho de baldinho e pá de areia envolto num pacote de papel celofane e laço), ninguém acredita e ainda acha que não vale a pena tanto trabalho pra economizar apenas alguns trocados. (Nota: encontrei em Campinas um porta-retrato de madeira em forma de barquinho, pintei, coloquei uma foto linda do meu filhote e ainda uma haste com balão, gastando com tudo, incluindo o material pra pintar, R$6,50 para cada um; nota 2: se quisesse o baldinho com papel celofane, comprado e embrulhado por mim, gastaria menos de R$4,00 - sem desconto para atacadista).

Tudo bem. A economia pode não ser lá grandes coisas - ainda mais se comparada a tanto trabalho -, mas quem paga o preço dessa recordação? Quem paga o preço por seu filho ter se sentido tão especial ao ver todo mundo envolvido com o aniversário dele? Ao ver pai e mãe (e ainda amigos!) pintando barquinhos depois de um dia duro de trabalho? Ao ver a tia e a avó fazendo bolo e docinhos? Ao ver tia, avó, tia-avó e mãe enrolando docinhos, embrulhando balas? Ao participar de tudo isso?

Não tem dinheiro no mundo que pague por uma festa assim.

Mas hoje a moda é diferente. A moda é fazer festa em buffet, festa pronta, sem trabalho, sem dor de cabeça, sem preocupação. Você paga a festa e é convidado. Chega e tudo está pronto, como num passe de mágica.

E o que mais me espanta é que isso se tornou um símbolo de status social. Pra ficar igual a todo mundo, tem gente que faz empréstimo pra pagar a festa, o buffet parcela em até 10 vezes (você respira um mês para no seguinte já começar a pagar a outra festa). A vida em prestações (afinal, será só mais uma mesmo, com a do carro zero, da casa no condomínio fechado, do pacote de férias para o exterior - qualquer lugar - e da TV de plasma de 40 polegadas).

Festa em casa? Só se for com mesa de bolo alugada. E, dependendo do lugar, uma mesa assim custa de R$400,00 a - pasmem - R$1.200,00 (só a mesa de bolo, com enfeites - da mesa de bolo -, alguns painéis e, com sorte, balões). Enfeites das mesas dos convidados e lembrancinhas para as crianças são cobrados à parte. É quase uma festa de buffet, com todos os requintes desta, só que em casa. Ih... mas ainda tem o trabalho de encomendar o bolo, os docinhos e os salgados. Sem falar na ida ao supermercado pra comprar o refrigerante. Ah não... melhor fazer no buffet mesmo.

Eu continuo com a minha teoria de faça-você-mesmo, agora da babá à festa de aniversário. E, definitivamente, não é pra economizar dinheiro. Não é porque não tenho dinheiro (eu poderia fazer um empréstimo...). É porque eu acredito que todos esses trabalhos - o cuidado diário e as datas especiais - são excelentes oportunidades de demonstrar aos nossos filhos o quanto os amamos, o quanto suas vidas são preciosas para nós, o quanto nos interessamos por eles, a ponto de abrir mão das facilidades pra ficar cansados e ver carinhas de alegria e satisfação mesmo com a festa simples que preparamos.


Mais um ano se passou e a próxima festa já está começando de novo. Alguém tem alguma idéia de tema pra me dar?

P.S. O título "Caixas e bolas" é referência a um livro infantil do Max Lucado, "Você é Meu". Os xulingos começaram a colecionar caixas e bolas. Bolas de todos os tipos e caixas coloridas (algumas especiais, com a etiqueta das lojas aparecendo). Todos os xulingos tinham caixas e bolas. Todos, menos Marcinelo. Como ele não queria ficar de fora, resolveu ficar igual aos outros. Faria o possível para ter o que os outros tinham (vendeu seus livros, começou a trabalhar à noite pra ganhar dinheiro extra, vendeu a cama e até a própria casa). Ele nunca imaginou que o preço seria tão alto. Eli, seu criador, aproveitou o momento para fazê-lo lembrar-se desta verdade: "Você é especial não pelo que você tem, mas pelo que você é. Você é meu. Eu amo você".

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Lógica 2

Segunda-feira de manhã, correria pra aprontar - como sempre -, e o Tomás não deixando o André brincar com os brinquedos dele. (É... as brigas 'fraternais' já começaram em casa. O André também começa a aprender a se defender. A confusão e os gritos que se seguem devem ser parecidos com os de toda casa que tem crianças pequenas).

O Hugo foi tentar apaziguar (afinal, o pequeno ainda é muito pequeno para se defender sozinho):

- Tomás, o André quer brincar com você, mas ele não entende como é que brinca ainda. Você tem que ensiná-lo.

- Mas, pai, eu não posso ensinar o André. Eu não sou professor.

Ele é que PENSA que não é...

Lógica

O aniversário do André se aproxima e começamos a entregar os convites. O Tomás é o responsável por essa parte. Já entregamos para os tios do Hugo em Anápolis e, ontem, aproveitamos o almoço e entregamos para os meus pais (a minha mãe gosta de guardar os convites dos aniversários).

- Vovó, olha, é o convite para o aniversário do André.
E, virando-se pra mim, perguntou:
- Vai ser lá em casa, mãe?
- Não, filho, vai ser aqui, na casa da vovó.
Alguns segundos pensativo e, depois, a constatação:
- Então, a gente não precisa entregar convite pra eles. Eles moram aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Quem sabe mais? - parte 2

E, na hora do almoço, semanas depois, o Tomás chega à seguinte conclusão:

- Pai, o Davi só fala mentira.
- Por quê, filho?
- Ele fala que ele sabe de tudo. Mentira. Ele não sabe de nada.
Ele fala que o Gustavo é o melhor amigo dele. Mentira. EU sou o melhor amigo dele.

Quem sabe mais?

Diálogo entre Tomás e Davi, no banco de trás do meu carro, num domingo pela manhã, voltando da igreja.

- Tomás, eu sei de tudo.
- Não sabe nada. Você acha que sabe de tudo, mas você não sabe de nada.
- Sei sim. Eu sei de quase tudo.
- Você sabe de quase tudo, mas você não sabe do resto.
- Que resto? É você que não sabe nada.
- Eu sei de tudo, mas eu não sei de quase nada.

Alguém sabe do que eles estavam falando?

sábado, 25 de agosto de 2007

Vovô Edésio


O André é a-pai-xo-na-do pelo vovô Edésio. A vovó Delza não admite, mas, lá no fundo, morde-se de ciúmes... Mas ele também gosta muito da vovó Delza. Só que, quando o vovô Edésio aparece, não tem pra ninguém, nem mesmo pra mamãe aqui. E é um tal de balançar a cabeça com tanta veemência pra quem tenta tirá-lo do colo do vovô... O vovô, por sua vez, fica parecendo que vai subir pelos ares de tanta felicidade.

E o que mais intriga a vovó Delza é que, pra ela, o vovô Edésio não faz muita coisa para conquistar tanta paixão. Mas será que é mesmo preciso razão pra se gostar de alguém?

O nosso poeta Carlos Drummond de Andrade acreditava que não. Em seu poema, "As sem-razões do amor", ele afirma, na primeira estrofe: "Eu te amo porque te amo". Simples assim. Sem qualquer razão ou motivo. Mais pra frente, ele ainda diz que "o amor é dado de graça" e "foge a dicionários e a regulamentos vários".

Eu também acho que não é preciso razão. Não dá pra explicar por que uma criança com menos de 1 ano já se identifica tanto com uma pessoa que ela nem vê todo dia. Deve haver mesmo uma identidade de almas...

O fato é que o vovô Edésio está sempre lá, disponível e disposto, seja para o colinho durante o desenho animado, seja para acompanhar subidas e descidas intermináveis da escada, ensinando os pequenos a descer "de fasto", como ele mesmo diz. (Eu não achei o significado dessa expressão no dicionário, mas quer dizer "de ré").

Acho que é essa disponibilidade e disposição que o fazem tão querido; ele simplesmente está lá para o que der e vier. E os netos têm esse poder de tornar os avós assim.

Um dia, acompanhei intrigada meu pai descer as escadas rumo à piscina, com uma toalha no ombro. O que o senhor vai fazer?, perguntei. E ele respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo: "Vou nadar com os meninos". Detalhe importante: durante toda a minha vida, vi meu pai entrar nessa piscina apenas e tão somente por duas únicas vezes.

Justiça seja feita: meu pai sempre esteve disponível também para nós, filhos. Sempre pronto para ouvir a nossa argumentação, na vã tentativa de escaparmos do castigo. Podia não dar certo (e acho mesmo que nem sempre dava), mas ele sempre ouvia com atenção. Ele entrou poucas vezes na piscina, é verdade, mas lembro-me bem dele levando eu e o Aurélio ao parque de diversões e ficando por horas na fila da montanha russa, guardando o nosso lugar debaixo do sol.

Mas eu acho que com neto é diferente e deve ser muito melhor. Você pode simplesmente estar junto, mas sem se preocupar com outras coisas que não seja curtir aquele momento. Acho que ser avô é isso, é ter a exata percepção da fragilidade e da fugacidade da vida e saber aproveitar momentos assim.

E o neto, sortudo, sem saber de nada disso, só aproveita o colinho...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O cargo de primeiro ajudante

Dá gosto ver como as crianças, em geral, são dispostas a ajudar, especialmente as pequenas. Estão sempre querendo participar de todas as atividades da casa, como lavar louças e até cozinhar. Quase sempre, acabam atrapalhando, principalmente quando estamos apressados ou cheios de coisas para fazer. Mas deveríamos ser mais pacientes e até mesmo incentivar as ajudas, pois elas podem ser uma verdadeira "mão na roda", além de fortalecer a idéia de grupo, de família mesmo, onde cada um tem a sua responsabilidade. Como dizem, "serviço de criança é pouco, mas quem dispensa é louco".

Quando o André nasceu, o Tomás queria ajudar em tudo, do banho às trocas de fralda. Então, como uma forma de integrá-lo mais à novidade de ter um irmãozinho, institui o cargo de "primeiro ajudante da mamãe". E ai de quem quisesse fazer alguma coisa que eu tivesse, antes, pedido a ele.

Um dia, ajudando o Hugo a trocar uma fralda do André, foi surpreendido com um "pum", digamos..., mais violento, que respingou longe, indo atingir sua camiseta. Ele quase renunciou ao cargo... mas acabou achando graça depois que disparamos a rir.

Lembro-me também de uma outra vez em que pedi a ele que buscasse uma meia branca para o André. Ele foi, todo prestativo. Mas não voltou. Depois de um tempão, veio com uma meia cheia de desenhos de carrinho, falando: "Mãe, olha, tem um branco aqui". Considerei todo o trabalho que ele teve pra conciliar o gosto dele com o meu pedido e apenas o agradeci muito por ser meu ajudante.

Mas, por mais que incentivemos, a verdade é que o gosto por ajudar vai diminuindo com a idade. E, depois, a ajuda só vem mesmo por obrigação.

O meu pequeno ajudante de 4 anos já não gosta tanto assim de ajudar. Já recusa-se a atender os meus pedidos e, ultimamente, só tem se interessado em ajudar quando vou fazer um bolo, pra poder lamber a colher. Mas ainda bem que outros vão aparecendo pelo caminho.

Ontem, vi surgir um novo candidato ao cargo de primeiro ajudante.

Estavam todos os netos na casa da minha mãe. Quatro. Todos homens. A farra é garantida quando todos se reúnem lá (e a confusão também). O André e o Lucas, com apenas 6 meses de diferença, já começam a se desentender e, ontem, disputavam a posse do "crocs" do Lucas, um sapatinho fofo, com carinhas de personagens da Disney pregadas no peito do pé e que tem esse nome porque tem um formato parecendo um crocodilo.

No meio de tudo isso, sinto um cheirinho característico... Detectada a origem, lá vou eu trocar a fralda do André. E o Lucas veio logo atrás.

Pra variar, o André não queria ficar quieto. Então, pedi ao Lucas que pegasse algum brinquedo para o André enquanto eu trocava a fralda, mas sem esperança de que ele atendesse ou mesmo entendesse o meu pedido, até mesmo porque não me lembrava de ter visto qualquer brinquedo espalhado pela sala.

Mas ele saiu correndo do quarto e qual não foi minha surpresa ao vê-lo voltar logo em seguida, oferecendo, para distrair o André, o antes disputado par de "crocs".

Lucas, você foi aprovado na seleção. Aceita ser nomeado para o cargo de primeiro ajudante da tia Lê?

sábado, 18 de agosto de 2007

Criança dá trabalho

Criança dá trabalho. Ponto. Simples assim. Verdadeiro assim. Acredito que, nesse aspecto, ninguém nunca tentou nos enganar. Prova disso são os inúmeros ditos populares que existem por aí sobre as agruras de pais e filhos. Exemplos batidos como: "ser mãe é padecer no paraíso" e até poemas, como o do nosso poetinha Vinicius de Morais, já quase incorporado aos ditos populares: "Filhos? Melhor não tê-los!"...

"Mas se não os temos como sabê-lo?", completa a estrofe.

Acho que talvez seria mesmo melhor não tê-los. Ao menos para as pessoas que querem se iludir achando que é possível ter criança e não ter trabalho.

Hellooooo, criança dá trabalho. E os pais precisam assumir o trabalho que uma criança dá. Não dá pra tirar a parte chata do negócio, passar a trabalheira adiante. Simplesmente porque é difícil distinguir o que é chato e o que não é. E, dependendo do ponto de vista, TUDO pode ser chato, TUDO pode ser difícil.

E se você for passar a parte chata para uma outra pessoa fazer, certamente estará perdendo muita coisa do seu filho, como os gritinhos de felicidade no banho, vê-lo segurando a colher ou a mamadeira sozinho pela primeira vez, descobrir dentinhos apontando, as gargalhadas dele quando você, para fazê-lo ficar quieto na hora de trocar a fralda, brinca de cheirar o chulé. E, quando ele está um pouco maior, ver que ele já sabe a história favorita de cor e rebolar pra tentar responder os tantos "por quês" da vida. Isso sem falar nos olhos sorrindo ao encontrarem os seus, as mãozinhas acariciando o seu cabelo na hora do sono e o abraço apertado que só você recebe.

Quando meu primeiro filho nasceu, lembro-me bem da primeira consulta ao pediatra, aos 10 dias de vida. A médica ficou intrigada quando eu garanti que estava tudo bem, que eu não estava tendo nenhum problema. "Como assim, tudo bem? Toda mãe chega aqui quase enlouquecendo...". Eu apenas disse: "Bom, não estou tendo MAIS trabalho do que eu já esperava ter. Então, pra mim, 'tá tudo bem".

E é verdade. Quem, em sã consciência, espera ter um filho e não ter trabalho? Impossível. Amamentar de 3 em 3 horas, colocar pra arrotar, trocar a fralda a cada mamada (na maioria das vezes, trocar também a roupa inteira), dar banho, colocar pra dormir, acalmar as crises de cólica... Tudo isso dá um trabalho...

Mas, como qualquer trabalho, pode se tornar um suplício, como também pode ser extremamente gratificante. Só depende de como você o encara.

Eu escolhi o caminho mais fácil; o que encararia a tarefa com prazer, e não como obrigação ou necessidade. Eu escolhi ser mãe. E adoro cuidar dos meus filhos. Adoro dar banho, adoro dar comida, adoro sentar no chão e brincar, adoro ler histórias para fazê-los dormir (às vezes, também tento cantar, mas a ausência de talento e o senso crítico me fazem ter dó dos ouvidinhos alheios). E os meus filhos retribuem essa minha escolha sendo excelentes filhos. Eles me surpreendem a cada dia. Não é corujice não. Eles são ótimos de verdade. Dormem a noite toda, alimentam-se bem e são saudáveis e alegres. O que mais uma mãe poderia querer?

Mas você deve estar se perguntando: "em qual galáxia fica o mundo cor-de-rosa dessa mulher?"

Calma. Eu já disse: criança dá trabalho. E trabalho, por mais que você goste dele, também nos deixa cansados, estressados, desanimados, nervosos, irritados... mas nem por isso você pede demissão e entrega pra outra pessoa fazer. Quer dizer, você pode até pedir demissão agora, mas depois vai ter que enfrentar mais trabalho ainda com um adolescente. E a tão esperada aposentadoria pode nunca chegar.

O que eu estou querendo dizer com tudo isso é que me espanta ver cada dia mais pais abdicando do direito de serem pais e entregando-o, de mãos beijadas (e aliviadas), para babás, sob o simples argumento de que criança dá trabalho demais.

E quem foi que disse que não dava?!??

Por favor, não me entendam errado. Não estou falando mal das babás, não estou falando mal de quem deixa o filho sob os cuidados de uma babá. Estou me referindo apenas àqueles que ENTREGAM os filhos para as babás, que sequer conseguem ficar sozinhos com eles, pois não conhecem seus gostos, seus hábitos, as brincadeiras preferidas.

Por isso, a babá está sempre presente: nos passeios no shopping, nas férias da família, nas festas de aniversário e até na visita aos avós. Elas ficam lá, de prontidão, com o uniforme branco, rápidas para atenderem o menor desejo de seus 'patrõezinhos', enquanto os 'patrõezões' compram sossegados, mastigam 30 vezes a mesma garfada, dormem até tarde, bebem uma cervejinha e conversam animadamente com os amigos.

Os filhos? Onde eles estão mesmo? Ah, estão ali, em algum canto, com as babás (quando não ficaram em casa dormindo ou assistindo a TV...)

Sério. Isso não combina comigo. Quero ter trabalho com meus filhos. Quero ficar cansada, com olheira, mas quero que seja EU a brincar com eles, EU a ensinar a falar certo (e não errado), EU a niná-los para dormir, EU a educá-los. Que a babá venha apenas quando eu precisar me ausentar, para os momentos de absoluta necessidade (e só!).

Mas o egoísmo que impera na nossa geração dita o contrário. Entregar os filhos para a babá para que, assim, os pais possam viver a vida deles sossegados, sem menino atrapalhando, tem sido culturalmente aceito e incentivado e, mais do que isso, exigido. Isso mesmo. Exigido. NINGUÉM tem uma vida de felicidade e sucesso se no pacote não estiver incluso uma babá para os filhos. O casamento exitoso precisa ter banheiros separados. O casamento com filhos exitoso precisa de uma boa babá pra toda hora.

E os que insistem em agir diferente - os ETÊS insanos e irresponsáveis do mundo cor-de-rosa, que cuidam sozinhos dos filhos e que vão ao parque e a festas de aniversário sem alguém para 'ajudar' - merecem tão somente a compaixão dos habitantes do mundo das babás. A mais consternada e intensa compaixão, quase como se estivessem diante de alguém que não tem o que comer.

É.. realmente, acho que sou uma louca moradora do mundo vizinho. Mas espero apenas que, no futuro, meus filhos também tenham tanto prazer com a minha companhia.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Enfim, 4 anos

"Mãe, por favor, você deixa eu ter 4 anos? Hein? Eu posso ter quatro anos? Você deixa? Por favor, vai..."

Esses insistentes pedidos preencheram a manhã inteira. Por onde eu ia, aquele pequeno ser de apenas 3 anos me seguia, pedindo insistentemente para que eu o deixasse completar 4 anos.

Num primeiro momento, ainda tentei argumentar, dizer que eu não tinha poder para tanto, que só Deus poderia fazer o tempo passar mais depressa e, enfim, chegar o tão esperado dia do aniversário. Mas o desejo dele não era propriamente pelo aniversário, pela festa, pelos doces e bolo, pelos presentes, brinquedos. O desejo maior era ter 4 anos. Era ser grande!

Mas ele não podia simplesmente decretar seus 4 anos, precisava de uma autorização. E eu deveria dá-la. Eu...

No fim da manhã, já cansada de tentar apresentar argumentos, falei um "tudo bem, você pode ter 4 anos. Aliás, você pode ter a idade que quiser". Ele: "Mesmo? Então, eu quero ter 5 anos".

Desisti. Por que toda criança quer crescer logo? Por que todas querem ser GRANDES? Tudo isso pra, depois, quando enfim se tornarem grandes, terem saudades do tempo em que eram crianças. Vá entender...

O grande dia seria 7 de agosto de 2007, uma terça-feira. Resolvemos antecipar a festa para a sexta-feira, dia 3, porque o Hugo estaria viajando na data certa. Não gosto muito de fazer isso. Gosto de comemorar o aniversário no dia do aniversário, ainda que o dia mesmo seja uma segunda ou terça-feira. Acho que só assim a festa é completa. Mas festa sem todos da família também não dá, ainda mais sem o pai.

Ele ficou radiante com o tal aniversário de, finalmente, 4 anos. Era quase um adulto. A vela em cima do bolo era a parte mais importante, comprovava para todos a nova idade.

Passada a festa, sobras mil, docinhos e salgados entupindo o congelador e engordando a gente, chegou o dia do aniversário mesmo, 7 de agosto. E não deu certo a viagem do Hugo... Resolvemos, então, chamar os avós, tios e primos para uma nova festa.

E lá vou eu contar a novidade...

O que era pra ter sido motivo de alegria (pensei que ele ficaria feliz por ter mais uma festa de aniversário), foi na verdade uma grande frustração.

Quando eu expliquei que aquele dia era o dia do aniversário mesmo e que no outro dia tinha sido só a festa, ele me perguntou, num tom de tristeza e decepção que eu nunca tinha visto: "Então, quer dizer que só hoje eu tenho 4 anos de verdade?"

É, filho, enfim, 4 anos. Desculpe por a mamãe ter te enganado. Nunca mais vou comemorar aniversário fora do dia.