quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"Fome come"


Esta aconteceu em julho de 2006. O Tomás não tinha nem 3 anos.

Já era tarde. O jantar estava demorando a ser servido e ele já reclamava de fome. Também, não sei que idéia foi essa de levar criança a festa de casamento. Mas é o tal negócio: casamento do primo em outra cidade, não tínhamos com quem deixar (e acho mesmo que nem queríamos deixar) e outras crianças também iriam. Além disso, ele já não comia mais papinha da Nestlé e a gente foi enganando com outras coisas até a hora do jantar.

Mas chega um momento em que você não agüenta mais bobeira e a sua fome é mesmo de arroz. E o Tomás é bem assim, ele gosta de "arroz, feijão e carninha". Chegara essa hora e ele não parava de reclamar que queria "papar".

Eu disse pra ele esperar só mais um pouquinho, porque o garçom já iria servir o jantar. Ele me perguntou quem era o garçom. Eu mostrei e me distraí. Quando vi, o Tomás já estava lá, pedindo ao garçom: "Você põe 'papá' pra mim?" Imagina se o garçom não serviu... Quem resistiria a um pedido desses?

E lá foi o Tomás, feliz da vida com seu arroz com 'carninha', e o pessoal perguntando pra ele como ele conseguira se servir antes de todos.

Sabe, tenho consciência da minha bênção de ter dois filhos que comem bem desde sempre. Comem muuuito bem, aliás. Esses dias pedi cópia das anotações feitas pela pediatra do Tomás quando morávamos em SP, porque na mudança para Goiânia havia perdido as minhas. Ri muito quando li o comentário dela de quando ele começou a comer papinha de fruta. "Aceitou bem a fruta. Come 2 bananas".

DUAS bananas! Pensando bem, é muito para um bebê de 4 meses. É muito até pra gente, que já é adulto. Mas aqui em casa é assim. O André também come 2 bananas e mama 250 ml de leite (o mesmo que o Tomás toma hoje, aos 4 anos - e acho que o mesmo que eu também tomo).

E me admira também a independência deles. Se o assunto é comida, não existe isso de ter vergonha de pedir. Ninguém passa fome, nem mesmo o André. Quando ele quer mamar, pega a nossa mão e nos leva até a cozinha, apontando para o filtro e falando um monte de coisas meio ininteligíveis. A gente entende o pedido e faz a mamadeira. Agora, ele deu pra pedir comida também. Se estou dando comida para o Tomás, ele vem correndo, já abrindo a boca, querendo o seu pedaço.

Viajei neste fim de semana e eles ficaram com o Hugo. Lá pelas 4h da tarde, o Hugo deu uma pêra para o André (que comeu tudo!). Uma hora e meia depois, ele fez uma mamadeira para o Tomás. Pra quê... Quando o André viu, foi logo reinvindicar a sua, puxou o Hugo para a cozinha e começou a reclamar. Só sossegou quando o Hugo deu o jantar dele adiantado (comeu tudo também!). Afinal, como dizem, pêra e maçã abrem o apetite, né?

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ainda sobre doenças

A hérnia inguinal do Tomás foi diagnosticada pelo Hugo, durante um banho. Era bem discreta. Mas, mesmo assim, resolvemos operar logo. Como disse o pediatra, "hérnia diagnosticada é hérnia operada".
Quando fomos contar para ele, a primeira reação - óbvio - foi dizer que não queria. Explicamos que não iria doer, que ele iria dormir e só depois o médico cortaria a barriga dele e faria a cirurgia.
Ele ficou intrigado com isso, "não vai doer?". Repetimos a explicação e ele, então, perguntou: "mas eu vou sentir?" A impressão que tive é que ele continuava sem entender, foi como se dissesse: "mas como não vai doer? eu não vou sentir cortar?"
Quando finalmente a cirurgia passou, ele viu que estávamos falando a verdade e contava isso pra todo mundo.
O Adriano, meu irmão, foi o primeiro a ligar e quis falar diretamente com ele. Ele foi logo explicando: "Tio Adriano, não doeu nada e eu também não senti. Eu soprei um balão e dormi. Aí, o médico cortou a minha barriga, mas eu não vi nada. Só depois que eu acordei".
É.. graças a Deus pela anestesia!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

"É só uma virose"


Muita gente se irrita com o diagnóstico acima. Dizem que é impreciso, vazio de significado (é qualquer doença provocada por vírus) e chegam até a questionar a competência dos médicos, afirmando que, quando eles não sabem o que é, saem com essa de "virose".

Nariz escorrendo, tosse, diarréia, febre, vômito, tudo é resumido em virose.

A indignação também surge por causa do caráter simplista do diagnóstico, que quase sempre vem acompanhado das frases: "não se preocupe; vai passar; não é nada de mais; é uma virose".

E a mãe, nervosa e cansada, pensa: " uma virose porque não é com o filho dele... não é ele quem vai ter que ficar noites sem dormir, com o filho ardendo em febre, sem vontade de comer ou mesmo brincar, com o ar abatido, olhos tristes..."

É... é muito ruim ver nossos filhos doentinhos, ver que tiraram o sorriso do rosto deles, ver os brinquedos espalhados pela casa sem alguém que os queira, ver a mamadeira cheia de leite.

Tentamos encontrar o consolo com o nome de uma doença, uma definição, um tratamento, qualquer coisa que faça com que o estado deles melhore. Mas virose nem nome de doença é. E, pra completar o desespero dos pais, não há nada que se possa fazer, pois não há tratamento para ela. Pode-se apenas aliviar os sintomas com repouso, hidratação, antitérmicos e analgésicos. E, depois disso, só nos resta esperar.

Mas eu tenho tentado pensar diferente. E não fico mais irritada ou indignada com o diagnóstico da virose. Pelo contrário, dou graças a Deus.

Dou graças porque a virose é uma "doença visita": chega sem avisar, perturba a paz da casa e, depois de 3 ou 4 dias, arruma a mala e vai embora. Pode até voltar no mês que vem, mas vai embora. E a criança, então, volta a sorrir, a brincar, a comer de tudo, exatamente como sempre foi. Pior seria se ela viesse pra ficar, se instalasse no melhor quarto da casa e, apesar de todas as nossas 'diretas', não fosse embora nunca...

Já passei alguns sustos com virose. E agradeci muito, muito mesmo, por ser "apenas uma virose".

O Tomás, quando tinha 9 meses e ainda morávamos em São Paulo, teve uma virose bem "braba". Me ligaram do berçário, febre de 39 graus. Autorizei as nove gotas de novalgina e pedi pra darem um banho. Liguei para o Hugo e fomos buscá-lo. Lá chegando, falaram que, no banho, perceberam umas manchinhas no corpo.

Em casa, decidi ligar para a pediatra, mas já passavam das 6h da tarde. Só ouvi a recomendação-ordem: "Eleonora, febre alta e mancha no corpo tem que olhar a criança. Leva para o pronto-socorro agora". Não pensei duas vezes.

No pronto-socorro, a pediatra examinou-o e disse para o Hugo: "Você é médico, eu vou falar: o baço dele está aumentado e essas manchas no corpo são petéquias. Você acha que aumentou?" E eu lá, ignorante e ignorada, querendo que alguém me explicasse o que eram petéquias. Em seguida, perguntou: "Ele tomou a vacina contra meningite?" Eu respondi bem rápido (afinal, era a única coisa que eu sabia): "Tomou". Ela: "É, mas mesmo assim corre-se o risco. Nós vamos fazer um exame de sangue e, dependendo do resultado, colher o liquor. Vocês podem aguardar".

Já íamos saindo quando ela nos chamou de volta e falou pra ficarmos em uma outra sala, isolados. A sensação de impotência e abandono foi instantânea. Olhei pro Hugo e perguntei: "É grave?". E ele, na calma que lhe é peculiar, mas com o olhar bem preocupado, disse: "Se for o que ela está suspeitando, é". Eu: "Posso ligar pra minha mãe?" (...)

Duas horas depois, o alívio: "é só uma virose". Ufa!!! (E a minha mãe bateu à porta do meu apartamento no outro dia, às 7h da manhã, no vôo mais cedo que ela conseguiu, mesmo sabendo que já estava tudo bem).

O André teve esse mês a primeira virose brava dele, também com manchinhas no corpo. Mas não eram petéquias (que agora eu sei como são e o que são; parecem pequenas manchinhas de sangue, do tamanho de uma cabeça de alfinete e indicam que as plaquetas estão baixas - se ficarem muito baixas, pode causar uma hemorragia interna). Experiência que traz tranqüilidade.

Mas, pra completar, coincidiu com a primeira cirurgia do Tomás, que foi operado de hérnia umbilical e inguinal. De novo, as palavras do médico: "não precisa se preocupar; a cirurgia é simples, rápida; tem alta no mesmo dia; em cinco dias já pode voltar à escola".

Confesso que me esforcei ao máximo pra tentar acreditar nisso, mas quando o vi voltando do centro cirúrgico, com aquela carinha assustada, sem saber o que acontecera, e depois, em casa, andando devagar e meio curvado por causa da dor, fiquei com dó e pensei que não era tão simples assim, que o médico tinha exagerado na 'simplicidade'.

Mas, no fundo, sem querer ser Polyanna, sei que poderia ser pior, que a cirurgia era simples sim, que era tipo uma virose, uma doença-visita. Não tem nem 5 dias que ele foi operado e eu já tenho que ficar dando bronca pra ele não pular do sofá.

Aos médicos, meu pedido de perdão e minha homenagem por dedicarem suas vidas a tratar desses pequenos e tentar aliviar dores de pais e filhos.

(18 de outubro, dia do médico)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Leão, leopardo e "leão pardo"

Um belo dia e somos surpreendidos com nossos pequenos já falando de tudo, argumentando e, principalmente, inventando palavras.

Acho uma graça ver o André tentando imitar os sons que fazemos; gritando por "ma-mã-í" e "pa-pa-í"; pegando o telefone, digitando números para depois falar "a-ô, vovô"; chamando o Tomás de "Tom-tom" com a voz mais aguda que possui, e pedindo "áua", muita "áua" (tradução: água).

Mas também me fascina a capacidade de argumentação do Tomás e as suas convicções.

Há uns dias ele me pediu para brincar com ele de "leão pardo", ele seria o "leão pardo" feroz e muito rápido, que iria correr atrás de mim.

Eu o corrigi, dizendo: "Filho, não é 'leão pardo', e sim leopardo".

E ele, mais rápido ainda, contra-argumentou: "Mãe, existe leão, existe leopardo e existe 'leão pardo'. Hoje, eu sou o 'leão pardo'".

Não tive outro caminho senão concordar. Afinal, se não me engano, todos os leões são mesmo pardos.