Quando eu li essa tirinha pela primeira vez, foi impossível não pensar na minha mãe. "Eles não deixam você ser mãe se não souber consertar tudo". Essa é a descrição perfeita da dona Delza. Ela sabe fazer tudo. Como muita gente diz, parece "bombril", tem mil e uma utilidades. Ah, e tudo com certificação "ISO9001".
Aquela menina que nasceu desenganada e foi "ressuscitada" com um banho de água quente, acordou pra vida e nunca mais dormiu no ponto. Com 9 anos, já cuidava da casa e dos irmãos menores, e fazia almoço sozinha, para que a vó Rodes pudesse trabalhar e ajudar o vô João no sustento da família.
O primeiro ofício foi de professora e, assim, alfabetizou o tio Antônio Euzébio, que até hoje sempre a homenageia no dia 15 de outubro.
Depois, mesmo tendo apenas o curso de magistério, conseguiu passar no vestibular para física - primeiro lugar! - e para medicina, e se especializou em pediatria.
Ah, não posso esquecer que, nesse meio tempo, ela conheceu e se apaixonou por um playboyzinho que fazia bagunça no trem que ia de Ipameri a Goiânia, passando por Pires do Rio. E, contrariando o vô João (história que ele não gostava de lembrar...), anteviu que aquele moço seria um excelente marido e um maravilhoso pai.
Acho que, nesse aniversário de 70 anos dela, eu poderia tranquilamente listar ao menos 70 profissões que ela exerce. Mas não vou fazer isso, podem ficar tranquilos... Só as mais importantes...
- Professora, como eu já disse. E não apenas do tio Antônio Euzébio e dos alunos que ela teve, mas também dos filhos.
- Médica, quase curandeira, que aliviava dores com o simples toque de sua mão, tranquila e segura. E também com um delicioso chazinho de cravo, canela e alho... Lembro-me de que, quando quebrei meu tornozelo, ela não estava em Goiânia. Passei duas noites sem dormir, sentindo dor. No dia que ela chegou, milagrosamente dormi a noite inteira, sem sentir nada. E a cólica dos netos ela também aliava assim, apenas passando a mão na barriguinha deles, tranquilamente, como se eles não estivessem esgoelando e esperneando sem parar no colo dela.
- Motorista, que se esforçava para nos levar no horário certo às inúmeras aulas extras, ainda que saísse de casa sem se pentear, com o pente preso ao cabelo, e dirigindo um doge polara com furo no assoalho. Sem falar na cena que ela guarda na memória, da Fernanda a esperando no portão de casa, com vestidinho de veludo e bota, toda "açucareiro", batendo os pezinhos porque estava atrasada.
- Cozinheira de mão cheia, que faz o melhor bolo de cenoura com chocolate do mundo (né Lucas?). E ainda faz adaptações de cardápios para diferentes gostos e também para os alérgicos da família (leia-se: eu). O bacalhau do barão e o "frango do barão" são sucessos garantidos!
- Costureira e estilista: fez seu próprio vestido de noiva e criou vários modelos para nós.
- Cabeleireira
- Arquiteta e decoradora de interiores: ninguém aqui decora a casa ou sequer prega um quadro na parede sem pedir o seu palpite.
- Engenheira
- Veterinária
- Jardineira
- Assistente social
- Promotora de eventos. Receber com certeza é um de seus dons. A "casa da tia Delza" sempre foi a preferida dos sobrinhos e de todas as crianças da nossa rua, e também dos nossos amigos. Apesar da cara brava e da fama de sistemática, sua casa sempre esteve cheia. Churrascos, festas de aniversário, confraternizações, natais, reuniões da igreja e até casamentos! Falou em festa, pensou na dona Delza.
- Decoradora de festas. Me lembro bem dela preparando as nossas festas de aniversário. Ela fazia tudo: cortava, pintava e montava painéis da parede atrás da mesa do bolo; ensaiava teatrinhos pra gente representar; costurava as fantasias; organizava gincanas; fazia bolo e docinhos. E o pior é que, naquela época, não tinha nada já preparado de antemão nas lojas. E ela fazia tudo isso atendendo consultório e trabalhando o dia inteiro.
- Decoradora de festas. Me lembro bem dela preparando as nossas festas de aniversário. Ela fazia tudo: cortava, pintava e montava painéis da parede atrás da mesa do bolo; ensaiava teatrinhos pra gente representar; costurava as fantasias; organizava gincanas; fazia bolo e docinhos. E o pior é que, naquela época, não tinha nada já preparado de antemão nas lojas. E ela fazia tudo isso atendendo consultório e trabalhando o dia inteiro.
Os aniversários lá em casa sempre foram uma data especial, tanto que ela nunca comemorou junto o do meu pai e o da Fernanda, que nasceram nos dias 11 e 12 de setembro, respectivamente. Nem o do Aurélio e o dela, que são nos dias 28 de setembro e 01 de outubro. Muito menos todos eles juntos (o que poderia até ser razoável). Mas não. Podia até ser uma festinha simples, mas cada um tinha seu dia.
Por isso, mãe, mesmo com a correria do casamento do Lelo, a gente não podia deixar essa data passar em branco. Não se faz 70 anos todo dia. 70 anos é um marco; tem até poesia do Carlos Drummond de Andrade. E ainda mais 70 anos como os da senhora.
Apesar desses 70 anos, a senhora continua incansável. Faz campanha de arrecadação de tampinhas para o Rotary, promove o Rotary Kids, gerencia a reforma da creche, costura panos de prato, toalhas e outros enfeites para o bazar da igreja. Tudo ao mesmo tempo agora. Nunca uma coisa de cada vez. E ainda está sempre pronta a nos ajudar no que for preciso. Basta a gente chamar!
Mãe, a Bíblia diz, em Provérbios 31.10, que "mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias". Assim a senhora é para nós. O seu valor muito excede o de finas joias, porque "enganosa é graça e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada" (Provérbios 31.30).
Louvamos a Deus por sua vida, que Ele a abençoe com muitos mais anos de vida ao nosso lado, com saúde, vigor e disposição, como tem sido até agora. E que tudo que a senhora faça seja sempre para honra e glória do nome do Senhor.
Feliz aniversário!