Tenho uma amiga de São Paulo, a Mariana, que, desde que o Tomás nasceu, brinca dizendo que ele tem cara de "doutor". Com o André, a brincadeira só se intensificou. Sempre que falo com ela, ela me pergunta sobre os meus "doutorzinhos".
O motivo da brincadeira é porque os dois nasceram com a maior cara de "menino homem", daquele tipo sério, compenetrado e, óbvio, porque eles são a cara do Hugo, que também tem, segundo a Mariana, a maior cara de "doutor". Mesmo o André, com todo aquele jeito de sapeca, tem os seus momentos de seriedade - principalmente quando está vestido de camisa e calça social; parece até que ele encarna um personagem. É, não há como negar, eles parecem mesmo miniaturas do Hugo, esses meus pequenos doutores...
E não é que o André tem levado a brincadeira a sério? Vira e mexe ele fala que será médico assim como o pai. Médico, e fazendeiro, e diácono da Igreja. Tudo igualzinho ao pai.
Um dia, logo depois que o Hugo o ensinou a tomar banho (acho que já contei essa história por aqui...), ele pediu: "Pai, você me ensina a ser médico?" O Hugo explicou que não é assim, que pra aprender a ser médico tem que estudar muito, fazer faculdade de medicina etc. etc. etc. Mas o fato é que, desde então, ele se concentra para aprender todas as coisas que o Hugo faz e também tudo que, lógico, está relacionado com a medicina.
Começou com a visita da turma dele da escola à exposição do corpo humano, no início deste ano. Tenho certeza que nenhuma outra criança da idade dele assimilou tanta coisa. Foi impressionante! A cada dia ele me explicava algo diferente. Exemplos:
"Mãe, eu preciso beber muita água. Isso é bom para os rins, sabia?"
"Mãe, a gente não pode fumar. O cigarro faz muito mal para os pulmões."
"Mãe, você sabia que é o cérebro que faz o braço mexer?"
Dia desses, o Luquinhas caiu e cortou o queixo. A Fernanda, tentando convencê-lo a trocar o curativo, aproveitou minha presença e disse que ele poderia me deixar ver o machucado, pois, afinal, eu era esposa de médico e sabia bem "dessas coisas". O André, que estava por perto, não perdeu a oportunidade:
"Eu também sei, tia Fernanda!"
A Fernanda riu e respondeu: "Ah, é mesmo, André... Eu tinha me esquecido... Você também sabe! Você é filho de médico, né?"
"É. E eu também assisto House!" ("Dr. House" é uma série americana, cujo personagem principal é um médico mal-humorado que se destaca pelos diagnósticos, sempre acertados, dos casos mais estranhos e raros que analisa num hospital universitário. O Hugo gosta de assistir e, como a série é em inglês, deixa o André ver algumas partes - já que ele não entenderá os impropérios que o House fala...)
Pronto. Médico já formado pelo exemplo do pai e por assistir ao Dr. House, ele passou efetivamente a exercer a medicina. Na semana passada, examinou seu primeiro paciente, fez o diagnóstico e prescreveu o tratamento.
Chegou da escola descrevendo o feito, ops, a consulta:
"Mãe, hoje o Rodrigo, meu amigo, estava passando mal na escola".
"Mesmo, filho? O que ele tinha?"
"Ele estava sentindo dor na barriga." Pausa. "E eu olhei ele."
"Hã?!? Como assim? O que você fez?"
"Eu examinei ele, mãe. Apertei a barriga dele igual o papai faz. E falei que era porque ele tinha comido muito doce, chocolate, torta, essas coisas..."
"Hã?!? Como assim? O que você fez?"
"Eu examinei ele, mãe. Apertei a barriga dele igual o papai faz. E falei que era porque ele tinha comido muito doce, chocolate, torta, essas coisas..."
"Sei..." (a minha cara era de quem simplesmente não estava acreditando no que ouvia...)
E ele continuou: "Aí, eu falei pra ele que era pra ele ficar bem quietinho e não comer mais doce, senão ele não iria melhorar."
Bom, só espero que ele continue com "condutas médicas" bem sensatas e que não invente nada mais que isso...








