Nunca fui daquelas mães que saem correndo, desesperadas, ao som de um chorinho qualquer. Sempre esperei o segundo choro, a confirmação do chamado, pra me levantar. Escutei da chinezinha dona do berçário que o Tomás ficou lá em São Paulo que a vantagem do berçário era exatamente esta: ensinar a criança a dividir a atenção. Ela me disse que o grande erro das mães era atender a criança incontinenti; que, agindo assim, a mãe fazia de seu filho um reizinho, mini-ditador da casa, a quem todos deveriam servir sem demora. Eu, sem ter a menor noção disso, já colocava o meu pequeno príncipe em seu devido lugar, fazendo-o saber que eu estava lá, mas não tão disponível quanto ele pensava.
Vendo assim, muita gente deve pensar que eu sou uma mãe desnaturada. Pode ser. Ou, quem sabe, egoísta. Pode ser também. Aliás, eu acho mesmo que sou uma mãe egoísta, pois penso em mim também, e não apenas no meu filho, como todo mundo acha que deve ser uma mãe. Aprecio uma noite bem dormida para, no dia seguinte, dar conta de todas as minhas "tarefas", inclusive e principalmente a de mãe.
O André, muito de vez em quando, acorda à noite chorando. Eu, pra variar, espero o segundo choro, a insistência. Quase sempre ele volta a dormir sozinho, sem ninguém ter ido ao seu encontro. Se eu o atendesse toda vez, com certeza ele se acostumaria com isso e acordaria toda noite me requisitando, o que não seria bom pra nenhum de nós dois. Pra mim, porque ficaria cansada no dia seguinte, por causa do meu sono picado. E ele, também com o sono picado, ficaria com o seu desenvolvimento comprometido. (Pode parecer desculpa esfarrapada de uma mãe preguiçosa, mas eu estou falando sério! Só depois que ele cala é que eu vou lá me certificar de que está tudo bem mesmo).
Mas, pra dizer a verdade, o silêncio me preocupa muito mais do que o choro. Já acordei muito no meio da noite, assustada, apenas pra ir olhar o que tinha acontecido que ninguém tinha acordado chorando pra mamar. E imaginem só que aterrorizante, para dizer o mínimo, deixar seu filho brincando no quarto ou na sala sozinho, ouvir um barulho tremendo e nenhum choro em seguida. Deus me livre! O choro nos consola. Como dizem, se chorou é porque está bem.
Lembro-me de uma amiga contando da primeira noite que a filha dormira a noite inteira sem acordar. Quando ela e o marido acordaram e viram que já eram 6h da manhã, eles mal tiveram forças para se levantar. Estava tudo tão calmo... eles tinham certeza que algo de muito mal tinha acontecido, aquilo não era normal. Que alívio e que felicidade ver a filha dormindo, tranqüila, no berço!
Ah... quem já não teve esse medo? O silêncio das crianças é assustador, é perigoso. Uma casa barulhenta, com crianças gritando, faz parte do pacote de quem tem filhos. Não tem jeito. É por isso que a mamãe porquinha, do clipe do "Cocoricó 2", da TV Cultura, diz "o porquinho 'tá cantando, então 'tá tudo bem". Tem barulho na casa. E, quando tudo silencia, ela, preocupada, resolve ir olhar o que ele está fazendo.
Ontem, o meu porquinho mais novo, que estava brincando pela casa, silenciou no quarto. Quando percebi a quietude do lugar, fui correndo ver o que estava acontecendo. Era bagunça na certa! Ele simplesmente tinha tirado todas as roupas do Tomás da cômoda e estava empilhando-as no chão. Que tal? Todas as roupas que estavam guardadas, bermuda dentro da camiseta, todas combinadas, tudo arrumadinho... E como você reage àquela carinha de quem foi pego fazendo coisa errada? Confesso que eu até tentei dar uma bronca, mas tive que, antes, sair do quarto pra rir... Faltou a foto!
O maior susto que a minha mãe já passou na vida foi por causa de um silêncio. Ela conta que foi a única vez que ela ficou sem ação, sem saber o que fazer (e olha que ela já passou por filho que caiu em fossa, que engoliu moeda e por vários e vários tombos, cortes e machucados). E foi comigo. Eu devia ter uns 3 anos. Estava tomando banho enquanto ela fazia o almoço. E conversava (pra variar). De repente, o silêncio. A minha mãe chamava e nada. Quando ela foi ver, eu estava caída no chão no banheiro, a água do chuveiro escorrendo pelo meu corpo. Ela me pegou no colo, aquele corpinho mole, e a única coisa que conseguiu fazer foi sentar no vaso e chorar, e chorar. No meio do choro, ela olhou pra mim de novo. Eu estava quietinha no colo dela, com os olhos arregalados, assustada, sem entender o que estava acontecendo: tinha acabado de acordar do meu "soninho" no banho... (Deve ter dado vontade de me bater, né?)
Mas é assim, quem tem filhos sabe muito bem o que é silêncio de menino. É melhor sair correndo pra ver, bem mais rápido do que quando se ouve apenas um "chorinho à toa"...