Querida Vó Rodes,
Ontem fiquei pensando em vários momentos meus em sua
companhia. E, em meio a tantas lembranças, me veio à mente as
muitas vezes em que nos sentávamos juntas e gastávamos um bom tempo
folheando o hinário da igreja, marcando os hinos que conhecíamos e
cantando os preferidos.
Lembrei-me, então, de um hino que a senhora sempre
gostou: “Conta as muitas bênçãos”, que diz assim, em sua
primeira estrofe: “Se da vida as vagas procelosas são, se com
desalento julgas tudo vão, conta as muitas bênçãos,
dize-as de uma vez, e verás, surpreso, quanto Deus já fez.”
Comecei a contar as muitas bênçãos, consciente de que
Deus muito fez nas nossas vidas por meio da vida da senhora.
Em primeiro lugar, eu queria dizer que por causa da
senhora e do Vô João eu tive a melhor infância que uma criança
pode sonhar em ter; que a senhora faz parte não só das melhores
lembranças da minha infância, mas de quase todas elas; que a casa
da senhora era a verdadeira 'casa de vó', dessas dos gibis e dos
filmes de sessão da tarde, onde os netos literalmente deitam e
rolam...
São tantas lembranças de bagunças que a gente fazia
por lá... O batizado das minhas bonecas e das bonecas da Camila e da
Renata; os desfiles de moda com as roupas da Tuta e seus robes e
camisolas; a cabana com lençóis e sofás virados na sala de visitas
(o mesmo conjunto de sofá que, inacreditavelmente, sobrevive até
hoje na sua sala); a nossa escolinha no seu quintal, com direito a
quadro negro, diário de classe, hora do recreio e lanche (lógico!);
o nosso salão de beleza com a sua penteadeira; as goiabeiras do
quintal – que praticamente merecem um capítulo à parte – e os
deliciosos doces de goiaba que a senhora fazia.
Ah, e se for falar de comida, aí a coisa aperta de
vez... Pra começar, o meu doce preferido é a sua especialidade –
a ambrosia! E tem também o biscoito de queijo, as roscas, o biscoito
“Santa Clara”, o bolo salgado (esse a senhora deixou de fazer
depois que eu tive alergia a presunto), o arroz “Maria Isabel” e
o arroz com linguiça. Tanta coisa boa!...
E também foi a senhora quem despertou em mim o gosto
pelas línguas, sendo a minha primeira “prof” de francês.
Mas as minhas lembranças não se resumem a bagunças e
comidas, momentos agradáveis de comunhão ao seu lado. O mais
importante de tudo que eu me lembro da senhora é a sua fé, passada
de geração em geração. Das manhãs de domingo que a gente ia à
Igreja todos juntos, com a nossa melhor roupa, como a senhora mesma
dizia, “com roupa de ver Deus”.
Lembro, como já disse acima, dos seus hinos preferidos,
que são vários... “Grandioso és Tu” (Canta minh'alma,
então, a ti, Senhor: grandioso és tu, grandioso és tu!...), “Um
hino ao Senhor” (As grutas, as rochas imensas, dos mundos o
grande esplendor, proclama bem alto, constantes, um hino ao teu nome,
Senhor!...), “Ações de Graças” (Graças dou por esta
vida, pelo bem que revelou; graças dou pelo futuro e por tudo que
passou...), “União com Deus” (Mais perto quero estar, meu
Deus, de ti, 'inda que seja a dor que me una a ti!...), “Chuvas
de bênçãos” (Chuvas de bênçãos teremos pelas promessas de
Deus; tempos benditos trazendo chuvas de bênçãos dos céus...),
“Firme nas Promessas” (Firme nas promessas do meu
Salvador, cantarei louvores ao meu Criador!...). Gostaria de ainda cantar algum deles com a senhora...
Seus hinos preferidos, vó, falam muito da sua fé: da
sua gratidão a Deus por tudo que Ele é e por tudo que Ele fez e faz
por nós; da sua consciência de que Ele é soberano sobre todas as
coisas; da sua confiança nas promessas de Deus; da sua esperança de
que é Ele quem nos dá paz e consolo sem medida; e, sobretudo, da
sua certeza de que é Ele quem nos perdoa dos nossos pecados e nos dá
a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador.
Vó, por tudo isso, eu queria mais uma vez que a senhora
soubesse o quanto eu a amo e o quanto a senhora é importante na
minha vida.
Na certeza de que a senhora estará livre de todo
sofrimento em Cristo Jesus e de que logo se alegrará perto de Deus
(como diz um de seus hinos preferidos),
com amor,