quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Eu decidi"

Não sei o que acontece com os filhos depois que eles crescem. Explico: quando bebês, comem tudo que a gente oferece. A primeira papinha do Tomás tinha abóbora e couve. Lembro-me de uma amiga dizendo que eu não deveria ter colocado couve, pois a couve é amarga e ele não iria comer. Que nada! Comeu tudinho com a melhor boca do mundo! Ah, e como era boa a boca que o Tomás fazia. Um bocão de fazer inveja a qualquer mãe.

O André não era diferente (fui uma mãe de bebês extremamente abençoada, reconheço). A boca não era tão grande quanto a do Tomás, mas ele comia de tudo, até grão-de-bico. Lembro-me das ajudantes do berçário contarem que havia disputa entre elas pra saber quem daria comida ao André. Tarefa fácil, fácil...

Mas, depois que crescem um pouco, começam a ficar seletivos, vão querendo afastar os "verdinhos" do prato, logo em seguida os coloridos também se vão e, se você não ficar atenta, não demora para estarem comendo apenas arroz, feijão e carne, ou - desespero geral - apenas arroz e carne.

E é nessa etapa que a paz na hora da refeição vai-se embora... Pra fazer com que eles comam os "verdinhos", a gente precisa dar bronca, deixar de castigo, tirar regalias. A hora da refeição transforma-se em martírio tanto para os pais quanto para a criança.

O Tomás passou rapidinho por essa fase. Dei a sorte de coincidir com uma época em que teve período integral na escola. O almoço era pessoalmente acompanhado por uma nutricionista, que fazia um trabalho excelente com as crianças, desafiando-as a experimentarem as comidas "diferentes". Pra completar, ainda havia a influência de bons amigos, que comiam salada bonitinhos.

Com o André, infelizmente, a história foi um pouco diferente. Sem o integral na escola, a queda de braço foi travada em casa mesmo. Sempre comeu de quase tudo, mas sempre à custa de broncas e ameaças. Uma tristeza.

Esses dias, já cansado dessa novela, com o André chorando pra comer um pedacinho de alface, o Hugo teve a seguinte conversa com ele: 

_ Olha, André, a partir de hoje eu nunca mais vou te obrigar a comer verduras.
_ Sério? (a carinha de quem não estava acreditando em tamanha felicidade era demais)
_ Sério.
_ Nenhuma verdura?
_ Nenhuma. Você vai comer apenas se você quiser. Você já tem 6 anos, você sabe que é importante comer verduras para crescer saudável. Eu não vou mais falar nada pra você.

E assim se passou a semana, sem o André colocar nenhum coloridinho no prato, só arroz, feijão e carne.

No fim de semana, foram os três para a fazenda: Hugo, Tomás e André. E, quando as mulheres não vão, as refeições são na casa do peão, feitas pela esposa deste. Geralmente, arroz, feijão e carne. No máximo, um tomatezinho. 

Um dia, após o almoço, a esposa do peão foi mostrar uns exames para o Hugo. Refluxo, deficiência de vitaminas, dor de estômago, unhas quebradiças - as reclamações eram muitas. O Hugo perguntou o que o médico da cidade havia falado. "Ah, disse que eu não posso comer isso, isso e isso, e que eu preciso comer isso, isso e aquilo." "E você está fazendo isso?" A resposta foi óbvia: "Não..."

Voltando pra casa, o Hugo comentou com o André, que tinha prestado bastante atenção em toda a conversa. "Tá vendo, André? Tudo aquilo que está acontecendo com a Luzia é só porque ela não come direito, come apenas bobeiras e não come verduras e frutas. Se você continuar sem comer, vai ficar igualzinho a ela."

Chegando em Goiânia, ele me contou toda a história. Perguntei, então, o que ele havia decidido. A resposta não veio. Como um bom representante da espécime masculina, saiu de perto de mim no mais absoluto silêncio, como se eu não tivesse perguntado nada.

Hoje, na hora do almoço, o silêncio foi quebrado: "Papai, pode colocar cenoura e tomate no meu prato. Eu decidi que eu vou comer verduras." Corri pra tirar a foto e registrar esse momento. E ele pediu: "Mamãe, coloca a minha foto comendo tomate no Facebook?"

Nenhum comentário: